terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Apresentação (para possível livro)

ex-escrava Rufina

sentadas - Toty e Cecy em pé- Luly e Heloisa

Em pé- Beatriz Piza e Lacerda sentadas- Toty e a avó Elisa

Carta de Asdrubal Franco de Lacerda para a filha Toty durante a Revolução de 1932

Toty no Paraizo - 1925

Beatriz Piza e Lacerda e a filha Toty - 1925


Fazenda Paraizo – São Carlos – 150 anos

Em 2010, a Fazenda Paraizo completa cento e cinquenta anos nas mãos da família Franco de Lacerda. Beatriz Lacerda Bacelar e Durval Bacelar que herdaram o velho casarão e parte das terras que cabiam a José Franco de Lacerda e cuidam com zelo extremado não só do casarão como de todas as benfeitorias da fazenda, resolveram comemorar a data. Pediram que eu escrevesse um pouco da história desses 150 anos.

Para contar a história da fazenda que é parte da história da cidade de São Carlos, no interior do Estado de São Paulo, coletamos histórias e memórias de pessoas que conheceram e viveram momentos na Paraizo. As lembranças, mesmo pessoais, fazem parte da história afetiva das famílias e de lugares compartilhados na memória coletiva.

Muitos registros da história da fazenda foram digitalizados - cartas, fotografias, bilhetes, diários, faturas mensais. Fotografias sem os nomes dos retratados, passaram pelas mãos dos mais velhos que identificaram um por um cada primo, tio e amigo. Alguns depoimentos foram gravados, transcritos, reescritos, relidos, modificados e serviram para “puxar o fio da memória”, trazendo à tona histórias que ficariam perdidas para sempre. Outros depoimentos foram mandados por e-mail, outros ainda, escritos em folhas de velhos cadernos, à lápis (como o de Antonio Gallo) – de uma riqueza de detalhes impressionante!

Esse resgate valioso ficará como parte da história da Fazenda Paraizo e de histórias que deram início a novas famílias, pedidos de casamento, casamentos realizados na fazenda, cadernos de receitas, mudas de árvores, móveis feitos na serraria da fazenda, festas, aniversários, amizades de vida inteira. Os documentos cedidos por Beatriz Lacerda Bacelar, com registros a partir de 1890, notas fiscais de fornecedores, cartas, procurações – são matéria prima dos sonhos para qualquer historiador. Cada registro pode confirmar histórias contadas pelos depoentes; algumas histórias passaram por várias gerações. Faturas de padarias, farmácias, hotéis, depósitos efetuados em dólar pela venda das safras de café. Encomendas feitas em São Paulo com pedido de entrega nas estações Canchim e Floresta também contam parte da história da família Franco de Lacerda e da história de São Carlos. Comprovam a importância da malha ferroviária do Estado de São Paulo e do descaso na preservação das antigas estações que ainda estão de pé...

O livro, montado a partir do blog com fotografias e depoimentos (http://fazendaparaizocentoecinquenta.blogspot.com) não pretende ser um trabalho acadêmico, mas uma coletânea de histórias vividas, lembranças de fatos, datas e lugares. Assim cada história pode ter diferentes versões com diferentes significados.

Ressaltamos, no entanto, como orientação para o trabalho, algumas leituras: o livro “Dias Ensolarados no Paraizo” de Brazilia Franco de Lacerda Arruda Botelho, diários escritos em cadernos que foram copiados à máquina e encadernados. Uma dessas cópias me foi emprestada por Toty Lacerda de Figueiredo Mello – são memórias da infância e adolescência da autora criada na fazenda que descreve, de forma preciosa, a vida no Paraizo no final do século XIX e começo do XX. Esses registros, muitas vezes, fazem parte de forma tão profunda nos descendentes, que alguns episódios foram contados como aparecem no livro.

A leitura do livro “Ruídos da Memória” da historiadora Marina Maluf (Editora Siciliano, 1995) sobre duas mulheres nas antigas fazendas paulistas foi de enorme valia: Brazilia Arruda Botelho e Floriza Barbosa Ferraz – a partir dos diários e cadernos de Brazilia e de um livro de memórias de Floriza. A leitura de historiadores, sociólogos e psicólogos sociais como Boris Fausto, José de Sousa Martins, Eclea Bosi, Eric Hobsbawn, entre outros, permitiu um olhar de historiadora sem, contudo, poder me distanciar das histórias contadas porque eu mesma virei parte da grande família do Paraizo e frequento a fazenda há quase quarenta anos.

A partir dos textos, parte dos documentos e das fotografias digitalizadas (em torno de 500) pode-se “montar” cada cena descrita, reconhecer traços familiares nos retratos no decorrer do tempo e constatar que muitas construções se mantêm como há 150 anos. Um passeio pela memória do século XIX.

Neta Mello

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Fazenda Paraíso – São Carlos – 150 anos de história


mapa da região de São Carlos - a fazenda Paraizo aparece com o nome Fazenda Lacerda (para ver detalhes, clique no mapa)
casa das máquinas e pontilhão dos vagonetes
sala da lareira
parede de taipa da tulha - Fotografias de Paulo Pires


Fazenda Paraíso – São Carlos – 150 anos de história

Profa. Dra. Maria Ângela P. C. S. Bortolucci

mariacsb@sc.usp.br

Departamento de Arquitetura e Urbanismo – EESC/USP


A fazenda Paraíso está localizada no município de São Carlos, distando poucos quilômetros da cidade. Aparece no mapa da Comissão Geographica e Geológica do Estado de São Paulo – folha Rincão, de 1926, com o nome de fazenda Lacerda, mostrando a projeção de três construções no conjunto da sede e, bem próxima a este, a projeção de mais quatro construções em fila que, certamente, seria uma colônia (Comissão, 1926). Todo este conjunto está a pouca distância da Estação Floresta, à margem do ribeirão dos Negros, do ramal de Água Vermelha da Companhia Paulista de Estrada de Ferro, que ligava São Carlos a Santa Eudóxia, num trajeto sinuoso por exigência da topografia e da necessidade de atender aos fazendeiros importantes da região. Suas terras, no início da ocupação, nos primeiros anos do século XIX, faziam parte da sesmaria do Quilombo, constituída pelo vigário de Piracicaba Manoel Joaquim do Amaral Gurgel que, já em 1812, vende-a juntamente com as benfeitorias realizadas. Em poucas décadas esta gleba troca várias vezes de proprietários, levando ao parcelamento e à formação de várias fazendas, cujos proprietários foram os responsáveis pelo rápido crescimento e ocupação desta porção do território paulista. Foi nesta onda pioneira que os Lacerda chegaram, há precisamente 150 anos, e se instalaram na região.

No Almanak da Província de São Paulo para 1873, na parte dedicada ao Município de São Carlos do Pinhal (LUNÉ, 1873, p.539-542), encontramos o nome de Antonio Franco de Camargo Lacerda & Irmão, na lista das 55 propriedades dedicadas ao plantio de café. Vale destacar que, além destes fazendeiros, o almanaque também inclui uma lista de 10 fazendeiros de cana de açúcar, que seriam as duas principais culturas do município naquela época. Este dado confirma o engajamento dos Lacerda na principal atividade econômica – o plantio de café – que estava em plena expansão na região naquele momento, mesmo antes da chegada da ferrovia em 1884.

O Almanaque de 1893, na seção que apresenta a “Divisão do Município em Quarteirões”, entre outras propriedades, é mencionada a fazenda de “Lacerda & Irmão”, localizada no 23º Quarteirão denominado Bairro do Monjolinho (AUGUSTO, 1894, p.20). Esta propriedade aparece novamente no mesmo almanaque, na relação dos “lavradores” (AUGUSTO, 1894, p.144). No Almanach de São Carlos para 1915 e no Almanach-Album de São Carlos 1916-1917, na relação dos fazendeiros do município de São Carlos, já consta o nome de Candido Franco de Lacerda relacionado ao “immovel” Paraíso, localizado no bairro Floresta, com uma plantação de 350 mil cafeeiros. E no Almanach Annuario de São Carlos de 1928, Candido Franco de Lacerda está incluído na relação dos fazendeiros com uma produção ampliada para 355 mil pés de café.

As instalações remanescentes que formam a atual fazenda Paraíso, apesar das alterações, ampliações e perdas, estão impregnadas das marcas de seu passado. São testemunhos materiais das histórias, das crenças e do cotidiano das gerações que habitaram cada pedaço, cada canto, destas edificações: o casarão, as tulhas, o terreiro... O casarão (erguido no final do século XIX em substituição ao antigo, demolido em 1897) é certamente o melhor exemplo desta capacidade de adaptação para se ajustar a novas necessidades e, talvez, seja por esta razão que conseguiu sobreviver até os tempos de hoje. Preserva-se a matéria, na mesma proporção que detém um valor familiar inestimável, alimentado pelas emoções e sentimentos de todos que por ali passaram. Há neste lugar uma aura de especial encantamento que tanto nos impressionou e que foi maravilhosamente captada pelas lentes do fotógrafo Paulo Pires que nos acompanhou em nossas visitas, em 1987, para realizar levantamentos que incluíam uma seqüência de fotografias dos espaços internos e externos das edificações, de detalhes construtivos, da paisagem etc.. Naquela ocasião estávamos iniciando nossos estudos sobre a arquitetura rural e urbana, os modos de vida, do século XIX e das primeiras décadas do século XX no interior paulista (posteriormente, foram realizados estudos mais ampliados deste patrimônio rural dos “Campos de Araraquara” por Benincasa e publicados em 2003). Fomos muito gentilmente recebidos pelo senhor José Lacerda, o proprietário da fazenda naquela época, que abriu as portas de sua casa para que fizéssemos nossos registros. Vale lembrar que ele se impressionou particularmente com as fotografias do senhor Paulo Pires a ponto de solicitar uma seqüência exclusiva.

É verdade que este conjunto de fotografias atesta o hibridismo de influências de gosto e de técnicas construtivas que foi uma das características do século XIX nesta região. A tradição mineira de construir, executada pelos escravos, presente nas edificações mais antigas convive com o saber fazer dos imigrantes estrangeiros. Nestas construções percebemos o intensivo uso da madeira, seja nas esquadrias, nos pisos ou nas estruturas dos telhados. O barro é matéria prima essencial, sempre, mas, o tijolo passa a prevalecer sobre a taipa. Foi rápida a assimilação das novidades por esta sociedade que se enriqueceu com o dinheiro do café e pode trazer todo tipo de modernização para seu cotidiano, tanto para produção de café, como para dentro do lar e para as áreas adjacentes à casa do fazendeiro (jardins, pomares, hortas etc.), compondo lugares inesquecíveis que foram tantas vezes objeto de relatos minuciosos dos antigos viajantes. Os autores Benincasa (2003) e Maluf (1995) incluem, em suas respectivas publicações, valiosas informações da fazenda Paraíso, oferecendo ricos detalhes de seu cotidiano, no final do século XIX e das primeiras décadas do século XX, através dos diários de Brazilia Oliveira Franco de Lacerda, filha de Elisa e Candido Franco de Lacerda. Vale destacar que a capa do livro de Benincasa é uma bela imagem dos jardins da fazenda Paraíso. De fato, este patrimônio rural é dotado de lugares paradisíacos e a fazenda Paraíso, sem dúvida, é um deles, fazendo jus ao nome que lhe foi dado. Graças aos cuidados da família Lacerda, que se mantém sua proprietária até os dias de hoje, esta fazenda alcança seus 150 anos de idade preservando-se com graça e elegância.

São Carlos, 06 de dezembro de 2009


Referências

BENINCASA, Vladimir Velhas Fazendas: arquitetura e cotidiano nos Campos da Araraquara. São Carlos, EdUFSCar; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2003.

CAMARGO, José Ferraz ed Almanach Annuario de São Carlos de 1928. São Carlos, 1928.

AUGUSTO, Joaquim ed Almanach de São Carlos. São Carlos, O Popular, 1894.

CAMARGO, Sebastião org Almanach de São Carlos para 1915. São Carlos, Typographia Joaquim Augusto, 1915.

CASTRO, Franklin org Almanach-Album de São Carlos 1916-1917. São Carlos, Typographia Artística, 1916-1917.

Comissão Geographica e Geológica do Estado de São Paulo – Folha Rincão, 1926 (mapa escala 1:100.000).

LUNÉ, Antônio José Batista de Almanak da Província de São Paulo para 1873. São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 1985.

MALUF, Marina Ruídos da Memória. São Paulo, Siciliano, 1995.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Mais fotografias...

Bodas de ouro Vovô Cândido e Vovó Elisa - 14 de julho de 1935

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Depoimento de Toty - Maria Beatriz Lacerda de Figueiredo Mello

Toty e Luly com a mãe Beatriz

Toty - 1925

Luly, Asdrúbal e Toty




Sérgio Figueiredo Mello, Toty e os filhos Roberto (dir.) e Carlos




Aos treze anos, Vovô Candido estava estudando na Alemanha, não sei em que cidade e recebeu a notícia da morte da mãe. O pai mandou buscar vovô Candido para tomar conta das terras que ficaram para os filhos como legítima da mãe, Clara. Isso foi o início do Paraizo. Eram mais ou menos quatrocentos alqueires. Ele desbravou as terras e plantou café – mais de 400 mil pés! Depois papai comprou mais um pouquinho.

O pai de Vovô Cândido, José Lacerda Guimarães, era o Barão de Arary. Ele se casou primeiro com Clara Franco de Camargo que teve doze filhos, entre eles Cândido. Depois da morte de Clara, o barão se casou com Maria Dalmácia de Lacerda Guimarães que teve cinco filhos. O Barão de Arary teve dezessete filhos!

Cândido Franco de Lacerda nasceu em 16 de agosto de 1857 em Araras e faleceu em São Paulo em 1944. Casou-se com Elisa Whitaker de Oliveira Lacerda. Elisa nasceu em 5 de dezembro ---- e faleceu em 8 de julho de 1946.

Vovô Cândido Franco de Lacerda e vovó Elisa Whitaker de Oliveira Lacerda se casaram no dia 14 de julho de 1885. Ele tinha 29 anos e ela, 21. Eram primos, conheciam-se desde pequenos. Durante o namoro, vovô ia à cavalo até a fazenda do pai de vovó Elisa que era o Visconde de Rio Claro. Vovó Elisa era clara e loirinha, eu só a conheci de cabelo branco...

O retrato com toda a família foi das Bodas de Ouro dos dois. Eu me lembro muito bem da festa, tinha dez anos, quase onze, em 1935.

Tiveram oito filhos:

1o - Cândido – nasceu em 9 de junho de 1886 e faleceu a 9 de outubro de 1886.

2o - Brazilia (Zila) - nasceu em 24 de maio de 1887 e faleceu em julho de 1966 - casada com Amadeo Arruda Botelho.

3o - Candido – nasceu em 20 de dezembro de 1888 e faleceu poucas horas depois.

4o - Evangelina (Vangila) – nasceu em 26 de novembro de 1889 e faleceu em 23 de janeiro de 1987, aos 97 anos - casada com Alfredo de Paranaguá Moniz

5o - Asdrubal Franco de Lacerda – nasceu em 19 de junho de 1891 e faleceu em 22 de novembro de 1950 - casado com Beatriz de Toledo Piza e Lacerda

6o – Maria das Dores – nasceu morta em 31 de janeiro de 1893

7o - Hannibal Oliveira Lacerda – nasceu em 30 de julho de 1896 e faleceu em ------ casado com Marina de Camargo Lacerda

8o - Maria José (Marocas) – nasceu em 7 de fevereiro de 1903 e faleceu----- casada com Theodoro Quartim Barboza

Vovô Cândido e Vovó Elisa viajavam muito. Passavam temporadas na Europa, em estações de águas e em Paris. Vovó deixou muitos diários dessas viagens, quase sempre acompanhada de Tia Marocas porque os outros filhos ou estavam estudando ou já estavam casados. Trocava muitas cartas com os filhos e netos.

Num trecho do diário de 21 de setembro 1912, ela relata de Neuchatel: “Voltamos logo, jantamos e fomos escrever, eu escrevi uma longa carta à Vangila e Zila e Cândido escreveu à Asdrúbal e à Totó Lacerda, Maria escreveu à Caio e a Hannibal...”. Da Europa, em 1912 foram para os Estados Unidos e só voltaram ao Brasil no dia 31 de janeiro de 1913. Tia Marocas ficou interna num colégio na França sob os cuidados de uma governanta, Melle Levasseur... Eram outros tempos!

Meus pais

Papai e mamãe, Asdrúbal Franco de Lacerda e Beatriz Toledo Piza, casaram em 7 de dezembro de 1915. Moraram 5 anos com vovó Elisa na Rua Brigadeiro Tobias 66, como todos os filhos que casavam. Mamãe se deu muito bem com vovó Elisa, aprendeu um monte de macetes – como servir a mesa, quantos pratos, quantos copos. Mamãe sempre dizia que aprendeu muito com vovó Elisa que gostava de tudo muito em ordem. Tinha empregados muito antigos e recebia muito.

Cada domingo vovó Elisa recebia um dos filhos, com marido ou mulher e os netos. Não sei como era no dia de Tia Zila e Tio Amadeo, com tantos filhos!

Todos os dias 5, 15 e 25 do mês, durante todo o ano, ela recebia quem quisesse aparecer para um lanche. Amigas, primas, filhos e netos. Lembro que nós, primos, ficávamos observando tudo e dávamos muita risada quando uma das amigas enfiava empadinhas do lanche na bolsa!

Eu tinha dois anos quando vovô e vovó mudaram para a casa da Avenida Higienópolis.

A mulher de Tio Bilú, Tia Marina era meio estranha, umas das poucas mulheres na época que tinha carro. Uma verdadeira banheira branca e preta!

Papai e mamãe ficaram dez anos sem ter filhos, gostavam muito dos sobrinhos, de Caio, Mariucha, os dois mais velhos de Tia Vangila e depois João e Marion.

Meu pai construiu muitas casas na Rua Bahia e para muitos primos em São Paulo. Foi ele também que construiu a sede da Fazenda Santo Antonio, o Jahu, como era conhecida a fazenda de Tia Zila e Tio Amadeo.

Em 1923 papai estava construindo a casa definitiva para mamãe e ele morarem. Mamãe teve sarampo e logo depois descobriu que estava grávida. Nesse mesmo ano morreu Vovô Pisa e também uma filha de Tia Stella, portanto sobrinha de mamãe. Mamãe e Tia Stella eram muito amigas, vizinhas quase de frente a vida toda.

Nasci no dia 11 de setembro de 1924. A casa, para um casal sem filhos, teve que ser aumentada! Dois anos depois, nasceu Luly. A Revolução de 1924 foi um pouco antes do meu nascimento. Tia Marocas estava esperando o filho Paulo que nasceu no dia 9 de julho de 1924. Muita gente fugiu para as fazendas, mas como nasci em setembro, papai e mamãe acharam melhor ficar em São Paulo. Tio Theo e Tia Marocas foram para nossa casa na Rua Bahia, já tinham a Heloisa, a filha mais velha. A cidade foi bombardeada em muito lugares e papai e tio Theo saíam para comprar comida. Isso eu me lembro de mamãe contar, foi meses antes do meu nascimento.

Na Revolução de 1932 – a Constitucionalista – eu me lembro perfeitamente de papai fardado partindo como Major. Como ele era engenheiro, foi mandado para Espirito Santo do Pinhal com estrategista, fazendo mapas, não sei dizer bem o que mais ele fazia. Temos cartas e telegramas que Luly guardou. Levaram burros e cavalos do Paraizo para as tropas paulistas. O Tuto de Maria Flora que também era engenheiro, chamou papai a vida inteira de Major, era engenheiro também, mas estava abaixo de papai no pelotão. Tio Bilú também foi lutar, não me lembro onde. Todos os paulistas em idade para lutar, lutaram em 32. Nós ficamos na fazenda durante a revolução. Me lembro de papai voltar muito barbudo, tinha uma barba fechada e de farda verde.

Quando pequenas, nós íamos muito menos para o Paraizo. Papai foi obrigado a cuidar da fazenda quando vovô Cândido não quis mais cuidar. Aí papai ficou doente e não podia ficar indo e vindo, então ele passava temporadas maiores no Paraizo. Ficava lá com mamãe e vovó Júlia ia para nossa casa em São Paulo para ficar conosco. Não dava para papai ir e voltar, a viagem era longa, então mamãe ia com ele.

Papai comprou a parte dos irmãos no Paraizo, eu devia ter uns 15 anos. Chamou Luly e eu porque José não se interessava. Mas nós dissemos que queríamos que ele vendesse propriedades para comprar a parte dele no Paraizo. Ele vendeu então umas casinhas que tinha na esquina da Brasil com a Rebouças para comprar aos poucos a parte dos irmãos.

Tio Amadeu tinha um monte de fazendas. Tio Théo tinha um monte de fazendas, Tia Vangila morava no Rio de Janeiro e Tio Alfredo já tinha morrido quando papai comprou a parte dela. Eu já conheci Tio Alfredo muito doente, tinha uma moléstia degenerativa e foi perdendo os movimentos.

Como meu primo João contou, ele e Caio que era o irmão mais velho, passaram alguns anos em diferentes épocas, cuidando do Paraizo.

O Caio trabalhava na Estrada de Ferro Leopoldina como engenheiro formado. Um dia, com o trem em andamento, ele apoiou o cotovelo na janela do trem. Outro trem passou e cortou o cotovelo dele. Foi na própria Leopoldina, numa viagem perto do Rio, Teresópolis, talvez. E o João saiu procurando o Caio em vários hospitais. Conta que estava desesperado, não achava o irmão e, de repente, ele viu num hospital ou coisa que o valha, um sujeito, num cantinho encolhidinho… Queriam amputar o braço do Caio! João tirou o Caio de lá e o levou para casa. Sofreu onze operações no Rio. Ficou perfeito, mas ele sofreu, foi uma tristeza. Quem fez as cirurgias foi o sogro da Marion, um grande médico, Dr. Gouvea. No fim, Caio ficou com um braço um pouquinho mais curto, mas você nem reparava, tinha todos os movimentos. Ele guiava, escrevia… Foi depois do acidente que ele foi trabalhar no Paraizo. Uns anos depois.

Nas férias todos se encontravam na fazenda. Como o Caio e o João eram os primos mais velhos, papai e mamãe deixavam que saíssemos com eles e, realmente, nós fazíamos uma farra: nós fomos explorar a cachoeira grande, com facão para abrir as picadas, cortar os galhos. É o Buracão. Tem vários buracões, mas o do José (que fica nas terras que depois ficaram para José) para mim é o maior.

O Caio plantou algodão no Paraizo que deu muito dinheiro. Uma plantação na rampa no Jabaquara. Eram 70 alqueires, se não me engano. Ele dizia sempre que foi o início da fortuna dele. Deu um algodão maravilhoso, era uma terra muito boa, vermelha. Aí depois de um ano tio Théo abriu o frigorífico e o levou embora e o João ficou. Quando Tio Theo comprou o frigorífico em Cruzeiro, levou Caio como gerente.

O café que vovô Cândido plantou estava velhíssimo. Eram 400 mil pés de café. Lindo, mas depois ficou velho, tinha mais de cem anos. E papai já estava muito doente do coração, teve que fechar o escritório dele de engenharia que ia muito bem.

Sempre muito jeitoso, muito simpático, muito brincalhão, papai era muito querido por todos. As tias, primas e amigas da vovó amavam o jeito dele que tinha muita paciência e bom humor. Era chamado para fazer todas as reformas das casas da família toda e seguia todos os caprichos pedidos! Uma dessas primas quis reformar o telhado da casa pelo lado de fora, sem mexer em nada por dentro. Ele concordou, disse que teria que montar uma armação por fora. Ela disse que pagaria o que fosse para continuar morando na casa durante a reforma.

Outro dia o Carlos (meu filho) me trouxe uma coisa que ele descobriu na prefeitura: um terreno na Rua México com o nome de papai tirando a planta. Não sei dizer se ele chegou a construir a casa.

Papai construiu a casa da família no Guarujá, a Vila Pinhal (na Praia de Pitangueiras). A casa de Tio Amadeu, da Rua Conselheiro Nébias 815 também com entrada pela rua de trás, a Barão de Limeira, foi obra de papai. O terreno tomava o quarteirão inteiro, um casarão enorme, muito gostoso. As meninas desciam a escada pelo corrimão, era altíssima! Tinha uma sala de jantar muito grande, um quintal muito bonito e na metade do terreno tinha uma divisória, com umas oito ou dez jabuticabeiras imensas, todas produzindo. Uma beleza na florada e em novembro todas carregadas de jabuticaba. Nessa casa, Tia Zila e Tio Amadeu criaram os filhos, casaram as filhas – a Vanja, Lisota – com festas no jardim enfeitado.

Eu me lembro, numa dessas festas, que Tia Zila me pediu para fazer a maionese. Imagine a quantidade de ovos para fazer uma maionese para tanta gente! Não era barato ovo naquela época, era uma responsabilidade, acho que foram 25 ou 30 ovos...

Papai, enquanto fazia as casas da fazenda (Santo Antonio) de Jaú para tio Amadeu, morou com ele. Tio Amadeu era muito bonito, mas rabugento. A casa do Jaú era enorme e linda.

A irmã do tio Amadeu, prima Elisa, era casada com um militar alemão, Kingelhofer, era bravíssima. Eles não tiveram filhos, mas tio Amadeu tomou conta das terras e patrimônio dela quando ela foi morar na Europa, em Paris, acho que uns 14 anos. Quando perdeu o marido, voltou. No testamento, eles deixaram o Palmital, que era a fazenda que tinha cabido a ela e que tio Amadeu tinha tomado conta, para o irmão. Ela tinha vivido na Europa largamente com os rendimentos que recebia das terras. Então, deixou a fazenda para tio Amadeu porque ele tomou conta a vida inteira.

Tia Zila era um amor, um encanto de criatura, muito doce. A descrição que ela deixou do casarão e da lida no Paraizo são preciosas!

Em Junho nós passávamos um mês, as férias naquela época começavam antes por causa das festas juninas…

Chegávamos lá pelo dia 13, 15 de Junho para as festas de Santo Antonio, São João, São Pedro e ficávamos um mês inteiro. Eu me lembro de chegar no Paraizo e ver todo aquele capim roxo com florzinhas do capim, tudo roxo. Era um capim melado, andávamos pelo pasto e a bota ficava engraxada, brilhando. Uma espécie de manteiga natural que se passava nas botas. E passávamos os dias de bota. Para montar à cavalo, para caminhar.

Quando papai passava tempos lá, tinha companhia do João e eles conversavam muito. Papai sempre foi muito querido pelos sobrinhos. Nós participávamos também das conversas que se alongavam no terraço ou na sala de jantar quando fazia frio.

Teve um dia em que João e pegou um livro velho e muito grosso de receitas, daqueles que todo mundo tinha, acho que era o Rosa Maria e começou a ler em voz alta em tom teatral. As receitas eram de você chorar de dar risada: era mutum ou outras aves estranhas, você tinha que arrancar as penas… Eu chorava de rir.

O casarão era ainda o mesmo descrito por Tia Zila nos “Dias Ensolarados no Paraizo”. A sala de jantar era o lugar que todos ficavam depois do jantar que era muito cedo. Castiçais e lampiões eram a luz para os bordados ou leitura. Papai parecia se desligar do mundo, sentado na ponta da mesa, concentrado, com os cotovelos na mesa e as mãos no queixo, sempre lendo ou estudando. Podia cair o mundo que ele não se abalava... Aos nove anos, papai veio para São Paulo, interno no Colégio São Bento. Depois entrou na Engenharia da Poli e, em 1915, se formou. Ele deve ter sido da décima turma da Poli. A turma era muito pequena.

Logo que montou o escritório de engenharia, começou a ter as dores no peito – angina – coisa que hoje pode ser diagnosticado e tratado... Papai estava reformando a casa de vovó Elisa na esquina da Higienópolis com Angélica quando teve os primeiros infartos. Acho que foi em 1928, mamãe estava esperando o José. Papai se jogava no sofá porque tinha andado da Avenida Higienópolis até em casa, na Rua Bahia. Não era longe, uns cinco ou seis quarteirões. Ele se cansava muito, ficava sempre ofegante.

Tinha sempre uns bancos para sentar na fazenda porque papai e vovô tinham essa mania: andavam, sentavam um pouco... Acho que papai ficava cansado por conta do coração já nessa época.

A entrada central tinha um bancão de madeira e aí você entrava naquele hall com as pinturas representando as quatro estações como está até hoje! Um empreiteiro italiano que vovó descobriu foi quem construiu a casa.

Depois do hall à direita ficava a sala de vovó, à esquerda o saguão da escada, também como tem até hoje. O José só fez uma coisa na primeira reforma que ficou sensacional que foi fazer aquele banheirinho embaixo da escada que não atrapalhou em nada. O escritório, a escrivaninha de vovô, a mesma que está lá e aquele armário. Ainda não existia a escadinha que José fez que dava no porão, ele guardava as coisas lá embaixo.

À direita do hall de entrada, era a sala de visitas de vovó Elisa com papel de parede vermelho, aveludado, com uma janela que dava para o terraço e uma porta para o jardim. Havia duas portas: uma dava para um quarto de hóspede avulso, uma visita de algum comprador ou (do lado da sala, tinha saída só para essa sala). Quando Sérgio e eu éramos noivos, ele ficava nesse quarto que virou a sala grande que José reformou.

Além desse quartinho, tinha a salinha de piano de vovó, a outra metade era um quarto de dormir. Tinha um piano preto, papai tocava flauta, tia Vangila cantava, tinha uma voz linda; mamãe tocava piano e tinha um irmão de vovó Elisa, Henrique Whitaker de Oliveira que queriam levar para cantar na ópera de Berlim! O piano é o mesmo da vida inteira. Havia ainda a sala de jantar antiga.

Não tinha banheiro embaixo. Havia um único banheiro na casa inteira. A planta era de uma casa americana que vovô Candido tirou de uma revista. Era sobrado, o que não era absolutamente comum em fazenda. Foi em 1897 que ele construiu a casa. Subia-se a escada, aquela escada bonita, e dava num quarto de vestir, depois você entrava naquele quarto enorme, que era o quarto de dormir de vovô e vovó, que era onde mamãe dormia…

Tinha o quarto de vestir, depois o de dormir, que era onde mamãe dormia e tinha a cama de casal. Uma porta de um lado, uma porta do outro lado e a cama no meio. A porta da esquerda dava no quarto dos meninos e a da direita no das meninas. O quarto dos meninos era ligado com o das meninas. Para as meninas saírem, ou elas passavam pelo quarto dos irmãos ou pelo da mãe. Elas ficavam ali presas... No livrinho de Tia Zila, ela conta a história do dia em que Tio Amadeo pediu Tia Zila em casamento e Tia Vangila correu para o quarto dos meninos, que era o mais próximo e escreveu na parede a data. O João mandou fazer uma moldurinha de madeira, como um quadro. Em uma das festas do Paraizo, o Fernão, meu primo, pediu para ver o tal quadrinho. E não é que não existia mais!! Talvez alguém que não soubesse da história, tenha mandado pintar a parede. Era uma lembrança, uma pena...

Havia no corredor um banheiro que era uma coisa horrorosa: você tinha que tomar banho de banheira. Vovó Elisa ficou felicíssima no dia que mandou tirar a banheira antiga de mármore. Anos mais tarde, o João achou jogada no pasto a banheira de vovó Elisa. Imagino que ela não aguentava mais... No inverno, subiam baldes e mais baldes de água fervendo e quando eram despejados na banheira de mármore, a água esfriava! Coitada, nunca tomou banho quente!

Na parte de cima, ligada pela escada de serviço que era uma novidade, nenhuma casa tinha duas escadas, mas a planta americana que vovô se encantou tinha essa escada na planta. No fundo do corredor de cima ficavam dois quartos de empregada que mais tarde viravam nossos – meu e de Luly – eram grandes, com janelas. Tinha uma porta que era fechada quando ainda eram das empregadas.

Tempos mais tarde, papai um dia teve a feliz idéia de fazer mais um banheiro. Nós vínhamos com amigas, uma turma – Cecília Sohn, Nini, Lolita e as primas.

Onde era a copa, bem embaixo do banheiro de cima, ele fez um banheiro para nós com chuveiro, a coisa mais deliciosa do mundo! Não sei dizer se hoje é um dos lavabos...

A cozinha tinha um fogão no canto, daqueles de metal, mas de lenha, com forno também de lenha, uma grande mesa para os empregados comerem e meio de escanteio, num cantinho mesmo, uma piazinha para lavar legume.

Quando eu já era mocinha, papai comprou um fogão elétrico para facilitar a vida da cozinheira e a nossa. A casa ficava muito cheia nas férias. Ele comprou uma geladeira também. Eu tinha uns 15 anos, isso deve ter sido em torno de 1940, que é quando nós começamos a ir muito pra lá. Mesmo assim, lembro de quando o Roberto e o Carlos eram nenês, muitas vezes tive que descer até a cozinha e acender o fogão de lenha para esquentar mamadeiras em banho-maria. Era terrível...

No pomar, quando eu era menina, tinha algumas jabuticabeiras plantadas por vovô Cândido, as mais antigas. Depois papai e José plantaram mais e também laranjeiras e mangueiras e completaram o pomar. O João fez aquele rond point de tijolos debaixo das árvores na frente da casa como se vê até hoje. Ali perto, ao lado das jabuticabeiras velhas, buscávamos água – uma torneira ou biquinha com água que vinha da mata que era a água que se podia beber.

O terraço de cima do casarão era o terraço do quarto da mestra – a professora que vovô contratou e que Tia Zila descreve tão bem. Era a vista mais bonita do Paraizo! Depois foi reformado e virou o telhado do terraço da entrada que foi aumentado por José. Nesse terraço tinha um banco grande de madeira onde sentávamos para ver o por do sol. Não cheguei a pegar o carramanchão que o João descreve e que aparece nas fotografias. Um quarto da frente virou quarto de mamãe com mais um banheiro que dava para o corredor.

A reforma que José fez na sala de jantar, a primeira, ficou maravilhosa. As janelas de vidro até o piso com vista para o lago. Carmem e eu forramos com tecido o armário de louças, ficou lindo! Era muito bonito comer com aquela vista, aquele horizonte. Tinha um terraço que saía da sala de jantar, aparece em muitas fotografias, não existe mais. A sala de jantar com a porta para a sala de visitas com a lareira e a estante imensa que José fez na fazenda com o marceneiro Moacir. O retrato do bisavô José Lacerda de Guimarães na parede acima da lareira – o Barão de Arary. Um conjunto muito bonito das duas salas! O retrato da bisavó Clara, José morria de medo quando era pequeno... Do segundo casamento de vovô com a cunhada, lembro de Tia Lili que falava meio tatibitate e andava com passinhos curtos – a história de continuar a conversa depois de se despedir de todo mundo como “tia Lili” é por causa dela.

Carmem fez uma boa reforma na parte de serviço, na cozinha, ficou mais clara, arejada. Uma horta grande, sempre bem cuidada, perto da casa do administrador. Carmem era muito caprichosa, morava lá e cuidava do jardim com um jardineiro, tudo funcionava. José e Carmem davam muitas festas, recebiam amigos e, em janeiro, no aniversário dela, dia 21, lembro que ela fazia um camarão com pirão que as amigas adoravam.

A fazenda nunca teve problema de falta d’água. Tinha o famoso “carneiro” que levava água para dentro, mas desperdiçava um colosso para fora!

Quando os meus filhos e de Luly eram crianças, nós revezávamos – quinze dias cada família – porque não cabia todo mundo! Era uma molecada enorme, uma farra. Depois Luly passou a usar a casa ali ao lado e dava para reunir a turma toda.

2009

domingo, 8 de novembro de 2009

Depoimento de Luly - Maria Lucia Lacerda Coelho de Paula







Fernando Coelho de Paula
Marcelo Coelho de Paula
Luly montada no Chiquinho

“Paraizo, o que foi o meu Paraizo? Férias, que emoção. Passar tempo no casarão, que alegria. Ver árvores, plantações, um luar, uma cachoeira chamada Buracão, onde tinha carrapatos e uma imensa emoção como se estivéssemos fazendo um safári na África.

Mamãe me trouxe para cá a primeira vez com seis meses. Eu sempre brinco que eu não sou nem sãocarlense nem paulista.

As jabuticabeiras que se enchiam de frutas. Eu era chamada para encher as cestas que eram mandadas pelo trem para os amigos paulistanos: jabuticaba era um fruto que nos deliciava. Era uma razão para convidar amigos, era a fruta das fazendas paulistas.

Papai, de polainas e chapéu, ia ver o serviço da fazenda a cavalo e eu ia com ele do casarão até o Alto do Jabaquara onde ainda tinha café. Foi cortado quando o vovô Cândido cedeu aquela área para nosso primo muito querido por nós, especialmente por meu pai, Caio Paranaguá Moniz, filho de tia Evangelina e tio Alfredo.

Papai e mamãe não tiveram filhos durante os dez primeiros anos de casamento, então o Caio, filho de Tia Vangila era queridíssimo deles, assim como todos esses sobrinhos. O Caio e o Jica eram mesmo muito queridos deles. Caio foi trabalhar no Paraizo para plantar algodão.

Nessa época começou a erradicação dos cafés, foi para nós uma novidade ver o algodão crescer no Alto do Jabaquara. [1939 mais ou menos].

Abrindo um parênteses. A família de Tia Vangila teve uma vida com muitas restrições porque o tio Alfredo ficou paralítico muito jovem. O Caio contava que manteiga eles só comiam no domingo. O começo da vida da tia Vangila com o tio Alfredo foi bastante difícil também porque ele ficava muito enciumado: desmanchava toda a bainha dos vestidos dela para ela não poder sair no Rio de Janeiro. Morria de ciúmes, ela era uma mulher linda!

Tão rica terra, chegou a produzir noventa capulhos [botão do algodão] por pé. E ainda era tão manual quanto o resto do serviço.

Tempos depois, Tio Théo convidou o Caio para trabalhar em Cruzeiro, onde meu pai trabalhava como sócio também. Tio Théo comprou com meu pai o Frigorífico Cruzeiro. Aí o Caio e Lucy, mulher dele, foram morar lá. E papai sempre dizia a Caio que o começo do dinheiro dele foi o algodão plantado no Paraizo, que rendeu a ele uns bons cobres, não sei exatamente quanto.

Primeiro ele foi como ajudante do tio Théo, eventualmente comprou a parte do papai.

De volta à lida no Paraizo. Quando colhido o café ele era trazido para os terreiros em carroças. E na infância, ainda bem pequenas, nosso prazer era ver soltar os burros que puxavam as carroças que, quando livres da cangalha, se espreguiçavam na terra e levantavam um poeirão.

Saíamos em grupos a cavalo, no começo acompanhados por um serviçal [Gumercindo], depois só nós – irmãos, primos e amigos.

Eu adorava cavalos. Comecei com o Periquito, depois tive o Rex e, aos dezoito anos pedi como presente um mangalarga: ganhei o Tangará.

Mamãe, que nada tinha a ver com culinária em São Paulo, na fazenda virava doceira, boleira, fazia pães e sequilhos pelas velhas receitas de família. Era muito usado se trocar receitas: bolos de dona Alaíde; pão de vovó Eliza; creme de vovó Júlia e por aí afora. Os nomes ficaram...

Meninotas românticas, no inverno, a graça era deitar nos montes de café e ver, naquelas mágicas noites de estrela, as estrelas caírem. Podia-se fazer um pedido, mas não se podia contar que tinha visto a estrela cair.

A volta para São Paulo não me agradava muito. Sempre fui muito ligada ao verde, ao espaço. Me lembro das frias madrugadas em que o Miranda, motorista de São Carlos e, às vezes, mais um táxi – vinham nos buscas. A estrela Vésper ainda estava no céu; nunca me esqueço destas viagens de trem; que maravilha! Em geral vínhamos e voltávamos de trem da Ferrovia Paulista porque a viagem era muito penosa – eram nove horas!

Se eu continuar a pensar, escrevo um livro. Por isso, vou parar e agradecer a Deus que exista gente como a Batoca e o Durval que com muita coragem e amor são os continuadores de seu pai, meu irmão José e mais 5 gerações.

Quando vovó Eliza morreu, deixou para cada um dos afilhados, 100 contos de réis [dinheiro de 1942], se não me engano. Ela era minha madrinha. Foram gastos: parte comprando um pedaço da Santa Cruz porque eu amava a terra. Papai até me perguntou se eu tinha certeza. Fiz uma viagem com Tio Théo para os Estados Unidos, ainda com esse dinheiro e guardei alguma coisa. Fiz uma viagem com a tia Lucy para Buenos Aires. Acho que eu gastei praticamente todo o meu dinheiro nisso.

A Fazenda Santa Cruz não era nossa. Era um pedacinho que ficava “encravado” na Paraizo. O dono queria vender e papai achou interessante comprar para acrescentar aquela área ao Paraizo. Só que papai não tinha aquele dinheiro todo. E os irmãos, a essa altura, queriam todos vender a fazenda, isso sim.

Eu comprei um terço da Santa Cruz, que com o correr dos anos ficou como uma parte da Paraizo. Aí o José me propôs trocar o terreno de mamãe em São Paulo, que é vizinho de casa até hoje.

Falando sobre os tempos de criança, eu me lembro que Mamãe se dava muito bem com a vovó Elisa e com a tia Brasília. Ela morou um tempo com a tia Brasília.

Papai construiu a casa da sede no Jaú e mamãe morou um tempo lá. A fazenda se chama Santo Antônio, eu acho. A fazendo ficou com algum dos filhos do Jica. – era era o filho mais velho da tia Zila. Antônio Carlos.

José Roberto Coelho de Paula assistiu ao depoimento de Luly. São casados há quase sessenta anos. Contou o que viveram lá:

Minha primeira visita ao Paraizo tem mais de 60 anos, quando éramos noivos. Depois de casados, Sérgio e Toty também iam para a fazenda com o Roberto, o filho mais velho. No mesmo ano nasceram o Fernando, de Luly e o Carlos de Toty. Em 1951. Tivemos mais quatro meninos – Marcelo, Asdrúbal, Eduardo e Luiz Roberto. Sérgio e Toty tiveram o terceiro, Luiz. Oito netos homens! Claro que toda a turma queria passar as férias no Paraizo. O casarão tinha só um banheiro embaixo para todos!

Quando José e Carmem se casaram e foram morar na fazenda, logo nasceram Elisa e Beatriz. E a casa não comportava tanta gente nas férias. Passamos a revezar – Toty e os filhos passavam uma temporada, eu e meus filhos, outra.

Pedi a José que se vagasse uma casa na colônia, nós faríamos uma pequena reforma para termos um canto nosso. Livraram duas geminadas.

Fizemos uma reforma bem precária com o único dinheiro que Toty e eu recebemos da Paraizo ao longo dos anos. Nós aplicamos na reforma da casa que não tinha banheiro, não tinha nada. A cozinha era do lado de fora. Nós não tínhamos para investir: era começo de vida, criançada pequena, uma luta.

Nós ficamos nessa casa para que Carmem e Toty pudessem ficar à vontade no casarão. Assim ficavam cinco crianças e não dez! Tinha uma cachoeirinha na frente da nossa casa, que a gente ia buscar água. Pegava a estrada, entrava no pasto e do pasto, o riozinho que saía do lago e lá tinha essa mina d’ água. Era uma cachoeirinha muito lindinha.

E foi assim, tarde calma, José, meu irmão, e eu resolvemos dar uma volta no pomar do velho e querido casarão do Paraizo, em direção a picada do mato, que confinava com o pomar. Caminho aberto no meio da mata. Era como se estivéssemos adentrando um pedaço de selva.

De repente José disse: Vamos vender essa fazenda, só dá trabalho, estou cansado.

E eu, para quem aquele pedaço de terra era muito especial disse: mas José isso é nosso, porque cada um de nós não assume a sua parte sem onerar a mamãe nas rendas devidas. Faríamos esse compromisso. Éramos todos moços o bastante para criar uma fazenda.

Foi assim que surgiu a idéia da partilha, tirando do José uma responsabilidade cansativa. Assim que nos reunimos e discutimos como seria essa divisão, Toty e Sérgio bem como nós dois achávamos que a sede que tinha sido mantida por José e Carmem Sylvia até aquele momento com carinho deveria ficar no pedaço deles. Esse casarão foi construído por Candido e Eliza, meus avôs em 1897.

Asdrúbal e Beatriz, meus pais, sempre tiveram com essa sede o mesmo carinho que meu irmão. Para nós, era uma alegria as férias na fazenda, não queríamos outro lugar, às vezes íamos a sós às vezes levávamos amigos. Quase sempre íamos pelo trem da Paulista que era uma maravilha e algumas outras de carro, o que representava muito boa disposição de meu pai, pois o carro às vezes quebrava e ele é quem tinha que consertar tudo, pois não havia o menor socorro nas estradas. Era tudo muito primário.

Da parte de mamãe sempre havia um farnel, pois as viagens chegavam a durar até 9h. Era uma farra sentar embaixo de uma árvore e fazer um piquenique, apesar dos percalços nunca houve mau humor nessas viagens.

Sempre gostei do Jabaquara, a área que nos coube na partilha.

A gleba do Paraizo era um grande retângulo, onde num dos extremos ficava a sede e o lado oposto a isso era o Jabaquara. Era muito comum eu ir com meu pai á cavalo pelo carreador central da sede até o alto do Jabaquara. Vestia-me sempre de calças de montaria e botas até o joelho, pois muitas vezes tínhamos que andar em campineiras onde havia o perigo das cobras. Mouro e Periquito eram os cavalos mais velhos e que nós usávamos, depois foram comprados Pipoca, Rex e outros que usávamos quase todos os dias. O Tangará ganhei de meus pais como presente dos 18 anos, foi comprado de uma fazenda de um amigo de meu pai que ficava em Laranjal.

Prontinha com o chapéu na cabeça e o rebenque na mão lá ia eu com o Zão, era como chamávamos nosso paizão, era passeio e trabalho, pois era durante essa caminhada que meu pai ia vendo o serviço e dando as ordens quando necessário. Saíamos cedo e voltávamos na hora do almoço, às vezes sob um sol escaldante e às vezes um gelo.

Quando papai assumiu a fazenda, grande parte era de cafezais que já velhos, mas ainda produtivos. Na baixada da várzea que era chamada de Japão, pois lá havíamos tido arrendatários imigrantes japoneses que não falavam português e tinham hábitos muito singelos. Construíram suas próprias casas de sapé e bambu em chão de terra batida e cultivavam uma boa área de arroz. Era uma gente muito arredia, nunca entramos em nenhuma das casas.

Passando a várzea começava o café, todo o lado direito até o alto do Jabaquara e do lado esquerdo havia a mata virgem que nunca foi cortada, 40 alqueires. A nossa divisão Jabaquara Paraizo era o ribeirão dos Negros. Que cortava a várzea em direção a represa do 29. Atravessando a Fazenda Morro Alto nossa vizinha e também algumas terras do Canchim. Uma vez feita a partilha cada um de nós começou a construir a sua fazenda.

Toty e Sérgio construíram na Santa Cruz uma casa pequena, já planejada para crescer. A fazenda dela confinava com o Paraizo e conosco num trecho onde havia uma estrada de ferro de bitola estreita da companhia Paulista. Com o Paraizo a divisa era feita com o córrego do Paraizo que despencava num salto até as terras baixas para se encontrar com o Ribeirão dos Negros. Foi um tempo muito bom em que nós, Zé Roberto e eu planejávamos e construíamos nossa fazenda. Não havia nada no Jabaquara, nem tulhas, nem terreiros, nem casa de empregados, nem luz, nem água encanada e nem telefone, começamos do zero.

Havia alguma plantação de café que nós mantivemos, plantamos uma nova área com café, tínhamos uma área de milho e outra de pasto. Foi conosco como administrador Jaime Mion filho do muito antigo administrador do Paraizo, era bem mocinho, eficiente e trabalhador. Só que como perfeição na existe, ele se arvorou em sócio do material que mandávamos para construir nossa fazenda, mas isso só foi percebido tempos depois. Construímos uma boa casa que imaginávamos um dia transformar em moradia do administrador, escritório e depósito. Construímos também a colônia, cinco casinhas feitas com capricho e com o mesmo material que usamos na nossa casa. Uma bela área no entorna das casas, tudo na mais perfeita ordem. Refizemos a tulha que estava caindo e fizemos o nosso próprio terreiro. Tudo era prazer.

O entusiasmo de Zé Roberto e meu era enorme em ver a casa crescer. Tínhamos dois pedreiros, Pedro Gandolphini e Angelim Ferrarini, ótimos, e um servente uma pessoa muito educada e inteligente e diferenciada Geraldo de Melo cujo filho foi mais tarde trabalhar na Santa Cruz e ficou como administrador até hoje na fazenda de Toty e Sérgio - o Antônio.

Chegava sexta-feira à noite. Era por a criançada no carro, mais gatos e papagaios e ir para o Jabaquara, que maravilha! Luz, água, telefone, estradas e cercas, tudo foi feito por nós,antes não havia nada, fizemos ainda um curral e uma estrebaria.

No Jabaquara tinha um salto e a água provinha de uma matinha cheia de palmitos, era um lugar encantador. Fazíamos divisa com uma estrada municipal entre nós e o Otavio Pinho. Do outro lado com a Fazenda Morro Alto e do outro lado com a Fazenda Sapé.

Uma área plana que havia no Jabaquara foi emprestada por meu avô Candido á seu neto, Caio Paranaguá Moniz que lá plantou algodão com enorme sucesso.

Caio também plantou eucaliptos em volta de toda essa área o que a deixou muito bonita. Esse primo era muito amigo e foi convidado por tio Teodoro para gerenciar um frigorífico que eles compraram em Cruzeiro.

Essa divisão feita por nós só nos deu alegria, nossos filhos cresceram nessa terra e sendo um grupo muito amigo, as férias eram uma farra. Nem se pensava em rádio ou televisão, tínhamos mais tempo para ler e pensar. Gozar das coisas mais pelas e simples da natureza sempre foi o nosso prazer.

O Jabaquara passou para as mãos do Asdrúbal quando ele voltou formado de Piracicaba como Engenheiro Agrônomo e aí surgiu a possibilidade da compra de uma fazenda vizinha chamada Floresta e assim continuou a nossa vida de reformadores de Fazendas. A Floresta tinha uma sede de 1880 que estava semi-abandonada e mais 80 alqueires de terra, duas cachoeiras.Era uma gleba linda e foi um prazer reforma-la durante 30 anos.


quarta-feira, 4 de novembro de 2009

mais fotografias

Luly e Toty - anos 40 - terraço sala de jantar do Paraizo
Luly, José, Beatriz e Toty no Jahu
Cândido e Elisa no Jahu
Asdrubal e Toty - anos 40
Bilú, Vangila e Asdrubal - 1912

Neia e Vovô Cândido