


“Paraizo, o que foi o meu Paraizo? Férias, que emoção. Passar tempo no casarão, que alegria. Ver árvores, plantações, um luar, uma cachoeira chamada Buracão, onde tinha carrapatos e uma imensa emoção como se estivéssemos fazendo um safári na África.
Mamãe me trouxe para cá a primeira vez com seis meses. Eu sempre brinco que eu não sou nem sãocarlense nem paulista.
As jabuticabeiras que se enchiam de frutas. Eu era chamada para encher as cestas que eram mandadas pelo trem para os amigos paulistanos: jabuticaba era um fruto que nos deliciava. Era uma razão para convidar amigos, era a fruta das fazendas paulistas.
Papai, de polainas e chapéu, ia ver o serviço da fazenda a cavalo e eu ia com ele do casarão até o Alto do Jabaquara onde ainda tinha café. Foi cortado quando o vovô Cândido cedeu aquela área para nosso primo muito querido por nós, especialmente por meu pai, Caio Paranaguá Moniz, filho de tia Evangelina e tio Alfredo.
Papai e mamãe não tiveram filhos durante os dez primeiros anos de casamento, então o Caio, filho de Tia Vangila era queridíssimo deles, assim como todos esses sobrinhos. O Caio e o Jica eram mesmo muito queridos deles. Caio foi trabalhar no Paraizo para plantar algodão.
Nessa época começou a erradicação dos cafés, foi para nós uma novidade ver o algodão crescer no Alto do Jabaquara. [1939 mais ou menos].
Abrindo um parênteses. A família de Tia Vangila teve uma vida com muitas restrições porque o tio Alfredo ficou paralítico muito jovem. O Caio contava que manteiga eles só comiam no domingo. O começo da vida da tia Vangila com o tio Alfredo foi bastante difícil também porque ele ficava muito enciumado: desmanchava toda a bainha dos vestidos dela para ela não poder sair no Rio de Janeiro. Morria de ciúmes, ela era uma mulher linda!
Tão rica terra, chegou a produzir noventa capulhos [botão do algodão] por pé. E ainda era tão manual quanto o resto do serviço.
Tempos depois, Tio Théo convidou o Caio para trabalhar em Cruzeiro, onde meu pai trabalhava como sócio também. Tio Théo comprou com meu pai o Frigorífico Cruzeiro. Aí o Caio e Lucy, mulher dele, foram morar lá. E papai sempre dizia a Caio que o começo do dinheiro dele foi o algodão plantado no Paraizo, que rendeu a ele uns bons cobres, não sei exatamente quanto.
Primeiro ele foi como ajudante do tio Théo, eventualmente comprou a parte do papai.
De volta à lida no Paraizo. Quando colhido o café ele era trazido para os terreiros em carroças. E na infância, ainda bem pequenas, nosso prazer era ver soltar os burros que puxavam as carroças que, quando livres da cangalha, se espreguiçavam na terra e levantavam um poeirão.
Saíamos em grupos a cavalo, no começo acompanhados por um serviçal [Gumercindo], depois só nós – irmãos, primos e amigos.
Eu adorava cavalos. Comecei com o Periquito, depois tive o Rex e, aos dezoito anos pedi como presente um mangalarga: ganhei o Tangará.
Mamãe, que nada tinha a ver com culinária em São Paulo, na fazenda virava doceira, boleira, fazia pães e sequilhos pelas velhas receitas de família. Era muito usado se trocar receitas: bolos de dona Alaíde; pão de vovó Eliza; creme de vovó Júlia e por aí afora. Os nomes ficaram...
Meninotas românticas, no inverno, a graça era deitar nos montes de café e ver, naquelas mágicas noites de estrela, as estrelas caírem. Podia-se fazer um pedido, mas não se podia contar que tinha visto a estrela cair.
A volta para São Paulo não me agradava muito. Sempre fui muito ligada ao verde, ao espaço. Me lembro das frias madrugadas em que o Miranda, motorista de São Carlos e, às vezes, mais um táxi – vinham nos buscas. A estrela Vésper ainda estava no céu; nunca me esqueço destas viagens de trem; que maravilha! Em geral vínhamos e voltávamos de trem da Ferrovia Paulista porque a viagem era muito penosa – eram nove horas!
Se eu continuar a pensar, escrevo um livro. Por isso, vou parar e agradecer a Deus que exista gente como a Batoca e o Durval que com muita coragem e amor são os continuadores de seu pai, meu irmão José e mais 5 gerações.
Quando vovó Eliza morreu, deixou para cada um dos afilhados, 100 contos de réis [dinheiro de 1942], se não me engano. Ela era minha madrinha. Foram gastos: parte comprando um pedaço da Santa Cruz porque eu amava a terra. Papai até me perguntou se eu tinha certeza. Fiz uma viagem com Tio Théo para os Estados Unidos, ainda com esse dinheiro e guardei alguma coisa. Fiz uma viagem com a tia Lucy para Buenos Aires. Acho que eu gastei praticamente todo o meu dinheiro nisso.
A Fazenda Santa Cruz não era nossa. Era um pedacinho que ficava “encravado” na Paraizo. O dono queria vender e papai achou interessante comprar para acrescentar aquela área ao Paraizo. Só que papai não tinha aquele dinheiro todo. E os irmãos, a essa altura, queriam todos vender a fazenda, isso sim.
Eu comprei um terço da Santa Cruz, que com o correr dos anos ficou como uma parte da Paraizo. Aí o José me propôs trocar o terreno de mamãe em São Paulo, que é vizinho de casa até hoje.
Falando sobre os tempos de criança, eu me lembro que Mamãe se dava muito bem com a vovó Elisa e com a tia Brasília. Ela morou um tempo com a tia Brasília.
Papai construiu a casa da sede no Jaú e mamãe morou um tempo lá. A fazenda se chama Santo Antônio, eu acho. A fazendo ficou com algum dos filhos do Jica. – era era o filho mais velho da tia Zila. Antônio Carlos.
José Roberto Coelho de Paula assistiu ao depoimento de Luly. São casados há quase sessenta anos. Contou o que viveram lá:
Minha primeira visita ao Paraizo tem mais de 60 anos, quando éramos noivos. Depois de casados, Sérgio e Toty também iam para a fazenda com o Roberto, o filho mais velho. No mesmo ano nasceram o Fernando, de Luly e o Carlos de Toty. Em 1951. Tivemos mais quatro meninos – Marcelo, Asdrúbal, Eduardo e Luiz Roberto. Sérgio e Toty tiveram o terceiro, Luiz. Oito netos homens! Claro que toda a turma queria passar as férias no Paraizo. O casarão tinha só um banheiro embaixo para todos!
Quando José e Carmem se casaram e foram morar na fazenda, logo nasceram Elisa e Beatriz. E a casa não comportava tanta gente nas férias. Passamos a revezar – Toty e os filhos passavam uma temporada, eu e meus filhos, outra.
Pedi a José que se vagasse uma casa na colônia, nós faríamos uma pequena reforma para termos um canto nosso. Livraram duas geminadas.
Fizemos uma reforma bem precária com o único dinheiro que Toty e eu recebemos da Paraizo ao longo dos anos. Nós aplicamos na reforma da casa que não tinha banheiro, não tinha nada. A cozinha era do lado de fora. Nós não tínhamos para investir: era começo de vida, criançada pequena, uma luta.
Nós ficamos nessa casa para que Carmem e Toty pudessem ficar à vontade no casarão. Assim ficavam cinco crianças e não dez! Tinha uma cachoeirinha na frente da nossa casa, que a gente ia buscar água. Pegava a estrada, entrava no pasto e do pasto, o riozinho que saía do lago e lá tinha essa mina d’ água. Era uma cachoeirinha muito lindinha.



























