domingo, 8 de novembro de 2009

Depoimento de Luly - Maria Lucia Lacerda Coelho de Paula


Fernando Coelho de Paula
Marcelo Coelho de Paula
Luly montada no Chiquinho

“Paraizo, o que foi o meu Paraizo? Férias, que emoção. Passar tempo no casarão, que alegria. Ver árvores, plantações, um luar, uma cachoeira chamada Buracão, onde tinha carrapatos e uma imensa emoção como se estivéssemos fazendo um safári na África.

Mamãe me trouxe para cá a primeira vez com seis meses. Eu sempre brinco que eu não sou nem sãocarlense nem paulista.

As jabuticabeiras que se enchiam de frutas. Eu era chamada para encher as cestas que eram mandadas pelo trem para os amigos paulistanos: jabuticaba era um fruto que nos deliciava. Era uma razão para convidar amigos, era a fruta das fazendas paulistas.

Papai, de polainas e chapéu, ia ver o serviço da fazenda a cavalo e eu ia com ele do casarão até o Alto do Jabaquara onde ainda tinha café. Foi cortado quando o vovô Cândido cedeu aquela área para nosso primo muito querido por nós, especialmente por meu pai, Caio Paranaguá Moniz, filho de tia Evangelina e tio Alfredo.

Papai e mamãe não tiveram filhos durante os dez primeiros anos de casamento, então o Caio, filho de Tia Vangila era queridíssimo deles, assim como todos esses sobrinhos. O Caio e o Jica eram mesmo muito queridos deles. Caio foi trabalhar no Paraizo para plantar algodão.

Nessa época começou a erradicação dos cafés, foi para nós uma novidade ver o algodão crescer no Alto do Jabaquara. [1939 mais ou menos].

Abrindo um parênteses. A família de Tia Vangila teve uma vida com muitas restrições porque o tio Alfredo ficou paralítico muito jovem. O Caio contava que manteiga eles só comiam no domingo. O começo da vida da tia Vangila com o tio Alfredo foi bastante difícil também porque ele ficava muito enciumado: desmanchava toda a bainha dos vestidos dela para ela não poder sair no Rio de Janeiro. Morria de ciúmes, ela era uma mulher linda!

Tão rica terra, chegou a produzir noventa capulhos [botão do algodão] por pé. E ainda era tão manual quanto o resto do serviço.

Tempos depois, Tio Théo convidou o Caio para trabalhar em Cruzeiro, onde meu pai trabalhava como sócio também. Tio Théo comprou com meu pai o Frigorífico Cruzeiro. Aí o Caio e Lucy, mulher dele, foram morar lá. E papai sempre dizia a Caio que o começo do dinheiro dele foi o algodão plantado no Paraizo, que rendeu a ele uns bons cobres, não sei exatamente quanto.

Primeiro ele foi como ajudante do tio Théo, eventualmente comprou a parte do papai.

De volta à lida no Paraizo. Quando colhido o café ele era trazido para os terreiros em carroças. E na infância, ainda bem pequenas, nosso prazer era ver soltar os burros que puxavam as carroças que, quando livres da cangalha, se espreguiçavam na terra e levantavam um poeirão.

Saíamos em grupos a cavalo, no começo acompanhados por um serviçal [Gumercindo], depois só nós – irmãos, primos e amigos.

Eu adorava cavalos. Comecei com o Periquito, depois tive o Rex e, aos dezoito anos pedi como presente um mangalarga: ganhei o Tangará.

Mamãe, que nada tinha a ver com culinária em São Paulo, na fazenda virava doceira, boleira, fazia pães e sequilhos pelas velhas receitas de família. Era muito usado se trocar receitas: bolos de dona Alaíde; pão de vovó Eliza; creme de vovó Júlia e por aí afora. Os nomes ficaram...

Meninotas românticas, no inverno, a graça era deitar nos montes de café e ver, naquelas mágicas noites de estrela, as estrelas caírem. Podia-se fazer um pedido, mas não se podia contar que tinha visto a estrela cair.

A volta para São Paulo não me agradava muito. Sempre fui muito ligada ao verde, ao espaço. Me lembro das frias madrugadas em que o Miranda, motorista de São Carlos e, às vezes, mais um táxi – vinham nos buscas. A estrela Vésper ainda estava no céu; nunca me esqueço destas viagens de trem; que maravilha! Em geral vínhamos e voltávamos de trem da Ferrovia Paulista porque a viagem era muito penosa – eram nove horas!

Se eu continuar a pensar, escrevo um livro. Por isso, vou parar e agradecer a Deus que exista gente como a Batoca e o Durval que com muita coragem e amor são os continuadores de seu pai, meu irmão José e mais 5 gerações.

Quando vovó Eliza morreu, deixou para cada um dos afilhados, 100 contos de réis [dinheiro de 1942], se não me engano. Ela era minha madrinha. Foram gastos: parte comprando um pedaço da Santa Cruz porque eu amava a terra. Papai até me perguntou se eu tinha certeza. Fiz uma viagem com Tio Théo para os Estados Unidos, ainda com esse dinheiro e guardei alguma coisa. Fiz uma viagem com a tia Lucy para Buenos Aires. Acho que eu gastei praticamente todo o meu dinheiro nisso.

A Fazenda Santa Cruz não era nossa. Era um pedacinho que ficava “encravado” na Paraizo. O dono queria vender e papai achou interessante comprar para acrescentar aquela área ao Paraizo. Só que papai não tinha aquele dinheiro todo. E os irmãos, a essa altura, queriam todos vender a fazenda, isso sim.

Eu comprei um terço da Santa Cruz, que com o correr dos anos ficou como uma parte da Paraizo. Aí o José me propôs trocar o terreno de mamãe em São Paulo, que é vizinho de casa até hoje.

Falando sobre os tempos de criança, eu me lembro que Mamãe se dava muito bem com a vovó Elisa e com a tia Brasília. Ela morou um tempo com a tia Brasília.

Papai construiu a casa da sede no Jaú e mamãe morou um tempo lá. A fazenda se chama Santo Antônio, eu acho. A fazendo ficou com algum dos filhos do Jica. – era era o filho mais velho da tia Zila. Antônio Carlos.

José Roberto Coelho de Paula assistiu ao depoimento de Luly. São casados há quase sessenta anos. Contou o que viveram lá:

Minha primeira visita ao Paraizo tem mais de 60 anos, quando éramos noivos. Depois de casados, Sérgio e Toty também iam para a fazenda com o Roberto, o filho mais velho. No mesmo ano nasceram o Fernando, de Luly e o Carlos de Toty. Em 1951. Tivemos mais quatro meninos – Marcelo, Asdrúbal, Eduardo e Luiz Roberto. Sérgio e Toty tiveram o terceiro, Luiz. Oito netos homens! Claro que toda a turma queria passar as férias no Paraizo. O casarão tinha só um banheiro embaixo para todos!

Quando José e Carmem se casaram e foram morar na fazenda, logo nasceram Elisa e Beatriz. E a casa não comportava tanta gente nas férias. Passamos a revezar – Toty e os filhos passavam uma temporada, eu e meus filhos, outra.

Pedi a José que se vagasse uma casa na colônia, nós faríamos uma pequena reforma para termos um canto nosso. Livraram duas geminadas.

Fizemos uma reforma bem precária com o único dinheiro que Toty e eu recebemos da Paraizo ao longo dos anos. Nós aplicamos na reforma da casa que não tinha banheiro, não tinha nada. A cozinha era do lado de fora. Nós não tínhamos para investir: era começo de vida, criançada pequena, uma luta.

Nós ficamos nessa casa para que Carmem e Toty pudessem ficar à vontade no casarão. Assim ficavam cinco crianças e não dez! Tinha uma cachoeirinha na frente da nossa casa, que a gente ia buscar água. Pegava a estrada, entrava no pasto e do pasto, o riozinho que saía do lago e lá tinha essa mina d’ água. Era uma cachoeirinha muito lindinha.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

mais fotografias

Luly e Toty - anos 40 - terraço sala de jantar do Paraizo
Luly, José, Beatriz e Toty no Jahu
Cândido e Elisa no Jahu
Asdrubal e Toty - anos 40
Bilú, Vangila e Asdrubal - 1912

Neia e Vovô Cândido

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Antonio Aparecido Gallo - o Toninho


jardins e casa da Faz. Santa Cruz

Antonio Aparecido Gallo, o Toninho, nasceu no dia 8 de dezembro de 1951. Tem uma irmã gêmea, Maria e muitos irmãos mais novos.
Toninho e Maria moram há mais de quarenta anos na Fazenda Santa Cruz, parte da Fazenda Paraizo dividida por Beatriz Piza e Lacerda, viúva de Asdrubal Franco de Lacerda. Coube à Toty Lacerda de Figueiredo Mello e Sérgio Figueiredo Mello o trecho da Santa Cruz. Lá começaram a construir nova sede em 1965 que foi sendo ampliada por Toty com o casamento dos filhos e a chegada dos netos. Um refúgio acolhedor que os onze netos e agregados aproveitaram e aproveitam muito.
Toninho é cozinheiro de mão cheia - faz um rosbife inigualável, uma farofa com pedacinhos de doce de carambola que é uma perdição e o famoso feijão, marca registrada que ficou na memória de todos que passaram pela fazenda! Jardineiro do "dedo verde", contador de causos, fã de Roberto Carlos e Beatles. Tem uma coleção de discos de vinil, gosta muito de ler e de conversar. Mandou por escrito o depoimento abaixo e prometeu escrever mais sobre o tempo em que morou na Fazenda Paraizo, bem pertinho da casa em que mora com a mulher Leni e os filhos Adriano e Adilson.

Em 1957 quando meus pais vieram morar na Fazenda Paraizo. Éramos só eu, a Maria (irmã gêmea) e o Jair com 3 anos de idade.

Meu pai veio especialmente para trabalhar na lavoura de café que era muito bonita e também na máquina de beneficiar. Lembro-me que os colonos colocavam o café no vagonete que descia até a máquina de beneficiar que ficava mais embaixo. Era muito bonito ver aqueles vagonetes correndo em cima dos trilhos da mureta até a máquina. Que saudade disso tudo!

Na colônia dos pretos, do tempo mais antigo, tinha sobrado uma única casa que estava muito velha. Lá moravam o Calixto, sua mãe Mariana e mais três netos – Paulo, Luiz e Joana. Ficamos amigos, éramos todos mais ou menos da mesma idade.

A Mariana era parteira. Meus cinco irmãos que nasceram já no Paraizo, nasceram todos com a ajuda dela. A Mariana tinha um jeito engraçado de falar. Acho que ela era descendente de escravos. Fumava cachimbo de barro com um canudo de madeira. Quando o canudinho do pito entupia ou quebrava, ela me chamava e falava assim: Nho Quinho, vai pegar outro canudo de pito pra mim, vai... Eu pegava e ajudava Mariana a encher o cachimbo de fumo e até acendia com um tição de madeira do fogão de lenha da casa dela mesmo. Era muito engraçado. Que saudade desse tempo, era tão bom...

As casas da colônia no Paraizo eram boas, já feitas com reboque de areia, cimento e cal, mas não tinha forro nem banheiro dentro. Tinha uma fossa do lado de fora da casa.

Em 1959 entrei para a escola do Paraizo no primeiro ano. Não fui muito bem e fui reprovado e em 1960 fiz de novo o primeiro ano e passei com nota muito boa para o segundo ano com a mesma professora, Dona Liliana Cerqueira Leite. Eu me lembro perfeitamente.

No terceiro ano já fui muito bem e passei para o quarto ano que só funcionava na cidade. Não pude continuar porque era muito difícil ir para a cidade. Não tinha como ir e também minha família aumentava sem parar! Eu já tinha 11 anos. Fiz a 1a Comunhão na capela da fazenda que era a escola e logo comecei a trabalhar ajudando na colheita de café.

Ao lado do terreiro tinha um cafezal novo, foi a primeira colheita. Sr. José nos chamou, o café era medido por litro. Quanto mais a gente colhesse mais ganhava. Eu gostava muito desse serviço e ajudava na minha casa com o que ganhava.

Como contei, a escola da fazenda era a capela ao lado do casarão. Éramos umas trinta crianças ao todo na classe. A professora vinha de charrete com capota de lona. O cocheiro era o Luiz Vigatti que a gente chamava de Lilão. Ele buscava a professora na Vila Néri e levava de volta após as aulas. Na hora do recreio, nós brincávamos de esconde-esconde em volta da escola e também de passa-anel que era uma brincadeira muito legal. Sr. José dava lanche para todos na escola – leite batido com banana bem gelado, uma delícia!

Por volta de 1960, Sr. José Lacerda começou a reformar todas as casas da colônia e pôs forro de madeira, fez banheiro dentro, com sanitário e chuveiro elétrico. Aí sim ficou uma beleza!

No Jabaquara tinha a olaria. Funcionava na beirada do rio para fazer tijolos. O barro era recolhido ali mesmo no brejo e levado para o amassador que era manual. Duas pessoas giravam até dar o ponto. Depois o barro era colocado na forma e ia para o forno bem quente para queimar. Isso era muito bonito, mas logo a olaria parou de funcionar, não sei por que.

A serraria era muito legal, mas as crianças não podiam ir lá, o Zé Mion, o administrador, não deixava porque era perigoso. O filho dele era marceneiro e fazia os móveis da fazenda. Muita coisa bonita.

Os cafezais da fazenda eram muito bonitos no tempo de colheita. Todo pessoal da colônia trabalhava – homens, mulheres – todos protegidos por roupas longas e chapéu de palha.

Em todas as casas da colônia tinha forno e fogão de lenha. Era muito gostoso no tempo frio quando a gente subia em cima da mesa do fogão para se esquentar.

No casarão, o Alécio era o jardineiro. Ele também marcava a hora de começar e terminar o serviço na fazenda. Batia o sino de manhã à 6 horas, depois às 9 que era hora do almoço. À 1 hora da tarde tocava para o café e à 5 horas pra terminar o dia.

O Edmundo levava o leite na carrocinha de quatro rodas todos os dias de manhã.

Ficamos no Paraizo de 1957 até 1964. No final desse ano, ouvimos falar que a fazenda ia ser dividida em três partes. O Zé Mion que era o administrador, começou a separar também os empregados para cada uma das três novas fazendas. Foi assim que viemos morar na colônia que passou a pertencer à Fazenda Santa Cruz de dona Toty. Em 1965 construíram a casa sede da Santa Cruz e quando ficou pronta, a Maria e eu começamos a trabalhar na limpeza e arrumação. Dona Toty foi ensinando também a fazer arroz, feijão, batata frita. Era divertido fazer isso.

Aos domingos à tarde, eu ia ao cinema. O Cine São Carlos ficava na Praça Coronel Sales. Eu adorava os filmes do Tarzan, era muito legal! Não deviam ter demolido o prédio do cinema, era uma coisa maravilhosa da nossa cidade. Ao lado tinha o Bar do Maneco onde íamos tomar sorvete de groselha. Que delícia que era!

Entre 1960 e 1964, japoneses arrendaram as terras da baixada, na beira da estrada de ferro do trenzinho Maria Fumaça, como nós chamávamos. Era tão bonita aquela máquina puxando um monte de vagões transportando o café das grandes lavouras de toda a região. Não sei direito para onde ia aquele café.

Fomos trabalhar para os japoneses na colheita de tomate, pepino, nabo, cenoura. Na hora do nosso almoço às vezes dava certo de o trenzinho passar e a gente jogava os tomates estragados nos vagões... Era divertido, uma arte de moleque! Tenho saudade de tudo isso e também das broncas que a gente levava dos japoneses, Sr. João Ottani e Paulo Cavaniti. Não me lembro se era um dos irmãos que não conseguia falar os nomes da gente, então demos o apelido de “Não Sei” e ele ficou conhecido por esse apelido!

(o depoimento ainda não terminou)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Depoimento Carmem Sylvia Alves de Lima e Motta - morou na Fazenda Paraizo de 1954 a 1987

Beatriz e Elisa Franco de Lacerda
Asdrubal Lacerda Coelho de Paula - Beatriz Lacerda - Eduardo Coelho de Paula - Elisa Lacerda - Carlos Figueiredo Mello - Marcelo Coelho de Paula - Luiz Figueiredo Mello
Elisa e Beatriz

Carmem Sylvia e José Lacerda - 1960
Frei Estevão - missa centenário - 19 de junho de 1960
Vangila Paranaguá Moniz- Beatriz Toledo Piza e Lacerda - Roberto Figueiredo Mello - Frei Estevão - José Franco de Lacerda
casa de máquinas
sala visitas
sala de jantar

1954. Foi quando começou minha nova vida no Paraizo com José Franco de Lacerda: namoro, noivado, casamento, e eis que estou de mudança para a Fazenda !! O que o amor faz acontecer...

Um enorme casarão de dois andares, jardim, horta, pomar, tudo por minha conta!

Aos poucos a rotina foi sendo feita e o dia a dia acontecendo: na cozinha, Honorata com suas panelas debaixo da pia, me fazia medo: na lavanderia, Rosária e sua filha Fátima (ou Famita assim chamada pelas minhas filhas, pois trocava as letras: laspi = lápis, mânica = máquina) era encarregada da roupa e dos quartos. No jardim, meu fiel escudeiro Alécio Vigatti, mantendo sempre varridos os caminhos, os pátios, os canteiros sempre floridos e o pomar com todas as frutas possíveis, para tapar a boca dos vizinhos!! Havia também uma figura singular, o velho Mané –, filho da escrava Felicidade, nascido de Ventre Livre com seu cachorro Japi, perambulando pelo jardim feito uma alma penada, bufando e resmungando .

Naquele tempo, a colônia era totalmente habitada pelas famílias que cuidavam do gado e do café.

Zé Mion administrava a fazenda com mãos de ferro orientado por José, que, todas as tardes no terraço da frente, ao entardecer, combinava as tarefas do dia seguinte. Isaura, sua mulher, com o famoso sorvete de creme com carambolas e Wilma, sua filha, com seus deliciosos pãezinhos, alegravam a criançada no tempo das férias.

Moacir, excelente marceneiro, formado pela Escola Industrial Paulino Carlos, fez lindos móveis com madeira da Fazenda e desenhos de José: estantes, mesas, banquetas com palhinha. Norma, sua mulher, era minha hábil costureira.

No tempo da colheita, a fazenda era só movimento: café sendo lavado e estendido no terreiro, uma parte era despolpada para exportação e a outra, colocada no vagão e encaminhada para a máquina de benefício. O café do Paraizo era muito bem cotado, “tipo 4 mole” e seguia para Santos pelo corretor Sr. Zambrano a fim de ser vendido no mercado.

No Jabaquara, em 1955 e 56, foram plantados mais 120.000 pés de café, perfazendo um total de 200.000 mudas .

No terreiro, a folia era grande: pular nos montes de café, esparramando tudo, para grande alegria dos encarregados, que tinham de amontoar tudo novamente!!

O casarão necessitava de uma reforma urgente para melhor acomodar os novos moradores, pois não se tratava mais de uma casa para passar as férias, mas sim para morar definitivamente, criar filhos, e raízes.

Havia somente um grande banheiro embaixo, a cozinha bastante antiquada, o tanque de lavar roupa do lado de fora da casa, um quarto de hóspede que dava para a sala.

José, arquiteto nato, conseguiu transformar tudo com muito cuidado, respeitando o estilo e as pinturas das portas e abaixo das janelas imitando mármore, transformando numa grande sala com lareira e jardim de inverno, dando para um pátio todo atijolado. Ficou esplêndido.

E, eis que de repente, o casarão se enche de alegria com a chegada de Elisa (nome das duas avós) em 55 e de Beatriz em 56, em homenagem à Vovó Beata, que tinha 7 netos homens !!!

Nas férias, o casarão tinha a lotação completa:Vovó Beata e sua turma: tia Stella, d.Alayde, Lúcia Sampaio Viana, Antonieta Morelli Rocha, prima Mercedes e tia Sinhá; Toty e Luly com seus sete filhotes e babás.... Era um corre corre o dia todo: café da manhâ, frutas e sucos, almoços em dois turnos (das crianças e dos adultos), lanche da tarde (para as vovós), jantar em dois turnos e lanchinho da noite para todos !!!

Na cozinha, Ana pilotava o fogão de lenha com muita maestria, e Tata, (antiga governante de José) deliciava a todos com seus sequilhos, pães de nata, biscoitão de polvilho e, nas horas vagas, fazia as célebres colchas de retalhos, tudo a mão e perfeito!! Ainda restam algumas.

Passeios a cavalo com os sobrinhos, caçadas noturnas de rãs, dedos presos em anzóis, futebol proibido para as meninas, fazendinha feita com frutas, etc.

Festa junina na tulha para os colonos com baileco animado pelo sanfoneiro, sanduíche de mortadela, quentão, fogueira no terreiro e levantamento do mastro com moedinhas na cova. Bons tempos aqueles quando se conhecia todos os empregados e havia amizade e respeito de ambos os lados.

A família dos Coelho de Paula aumentava. Nasceu Luiz Roberto, mais um menino!!! Uma casa abaixo do terreiro foi reformada, onde podiam ficar com mais espaço e melhor acomodados.

Havia sessão de teatro sob a direção de Roberto, que, com sua equipe de artistas – Leme, Celso, Max, Vergueiro – improvisava cenas hilárias, bailes ao som do órgão, jogo das palavras, mímica, queijo derretido na lareira... Assim eram as noites de julho nas férias. No verão, a piscina improvisada era o reservatório para irrigação do novo cafezal. Todos aprenderam a nadar e travar guerra de abacate. Como a piscina era de cimento e a água, escura, as mães contavam as crianças centenas de vezes para ver se nenhuma estava faltando!!! Graças aos anjos da guarda, todos sobreviveram. E a piscina virou piscina de verdade...

Ficávamos na Fazenda durante o ano todo, vindo a São Paulo nos aniversários das avós e no Natal.

As festas no Paraizo eram animadas, nosso grupo de amigos era bem diversificado: alemães, alguns músicos, professores da USP, fazendeiros e o grupo dos “onze casais”, que até hoje ainda encontro quando vou a São Carlos.

A cidade cresceu e se modernizou. Adeus ao bonde da Avenida, que volta e meia parava na subida por falta de luz, ao trenzinho da Estação Babilônia, ao carroção de leite puxado por seis mulas mineiras habilmente dirigido pelo Edmundo, pai da Ana – portador dos proibidos rapé, cigarros – para os sobrinhos e amigos! Depois vieram os primeiros supermercados em lugar das vendas...

Com a divisão do Paraizo, Toty na Santa Cruz, Luly no Jabaquara e José no Paraizo, cada um ficou com sua sede própria, para melhor desenvolverem seus projetos e acomodarem seus familiares e amigos.

Por ocasião do centenário, 1960, o casarão foi pintado, os quartos remodelados, colchas e cortinas novas, móveis consertados e banheiros novos para maior conforto geral.

Uma linda missa campal rezada pelo saudoso Frei Estevão de Piracicaba e assistida por Sérgio (Figueiredo Mello), seguida de um delicioso churrasco para 300 convidados (foto) marcaram o lançamento da pedra fundamental da capela (atualmente na tulha).

As crianças cresciam. Elisa e Beatriz frequentavam o Colégio São Carlos. No começo dos anos 70, fui convidada a prestar vestibular para Biblioteconomia!!! Imagine minha ousadia, e não é que fui aprovada? Mãe e filhas estudando, foi uma época muito divertida e proveitosa!

Os afazeres eram muitos e variados: geléias, compotas, sabão de abacate, arrumação dos muitos vasos de flores, embalagem de carne para o freezer, colheita de flores para venda no mercado, artesanato rural (feito pelas mulheres da colônia e encaminhados para o Bazar das Fazendeiras), cursos de queijos e decoração, campanha de vacinação nas fazendas, assim eram ocupados meus dias.

(primeira parte...)

sábado, 5 de setembro de 2009

verso da fotografia...




No verso da fotografia de Vangila com o cachorro Capi pode-se ler: 26 de novembro de 1901. Capi falleceu em 27-8-1908 de uma crise do coração de baixo de um pé de café. Vangila aos 13 anos. Paraizo


quarta-feira, 2 de setembro de 2009

aguardem mais depoimentos....

Vangila, Beatriz, Asdrubal Lacerda, Caio e Mariucha Paranaguá - 1915

Morador da fazenda Paraizo na infância e da fazenda Santa Cruz há mais de 40 anos, Antonio Gallo, tem muitas histórias sobre antigos colonos, como a parteira Mariana que morava na velha colônia dos pretos e que trouxe muitas crianças ao mundo. Aguardem...

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

fotografias de Toty Lacerda de Figueiredo Mello



Os depoimentos de Toty Lacerda de Figueiredo Mello e de Luly Lacerda Coelho de Paula ainda não foram transcritos. Aguardem...


Luly, Beatriz, Toty e vovó Elisa - mata fazenda Paraizo

Beatriz e Asdrubal Franco de Lacerda

Amadeu Arruda Botelho e Brazilia (Zila)

Vovô Candido, Asdrubal e Beatriz

José Lacerda e João Paranaguá Moniz

Zila e vovó Elisa