quinta-feira, 1 de abril de 2010

Do livro de Tia Zila – “Dias ensolarados no Paraizo”


Segundo a historiadora Marina Maluf, “Brazilia se impôs a tarefa de fazer a crônica da vida da casa, de seus costumes e arranjos. Procurou também observar o movimento da fazenda e seus tempos de plantar e de colher – o ritmo de vida rememorado parecia, afinal, obedecer a uma só temporalidade, a dos cafezais.... as reminiscências de Brazilia sugerem antes um “conferir” que uma reflexão para capturar o sentido da vida que levou. Ela ordena a multiplicidade de acontecimentos, mas a rigor, ao escrever como ato de dignidade, parece não rememorar para construir um novo ponto de vista sobre si mesma... Brazilia procura ser a grande ausente de suas memórias e diários e, no entanto, se mostra e se esconde na mesma frase, num jogo inconsciente de ocultamento.... Ao rememorar, a autora repete a representação social enquanto cronista da casa e da fazenda: ela é o sujeito documental que ordena e racionaliza lugares e imagens, como um arquivo que é consultado toda vez que se busca uma lembrança. Brazilia manteve na mente a casa e a Fazenda Paraizo sem, no entanto, constituir espaços cuidadosamente habitados. Sua memória visita lugares, resgata objetos arrolados como uma espécie de alfabeto interno, e faz uma leitura desse material seguindo uma cuidadosa sequência, de modo a não espacializar valores e significados de sua intimidade. Para ‘entrar em casa’ e descrever a ala íntima, ela recorre a Asdrúbal, seu irmão:

“De noite cada um pegava um castiçal e ia para seo quarto. Asdrúbal já tinha 4 annos, quando ia sosinho para seo quarto. Era alli mesmo, perto da sala; um quarto grande com 2 janellas dando para o terreirinho. Dividia o quarto um tabique de madeira envernizada que tomava 2 terços do quarto, deixando uma passagem perto das janellas.... D’esse quarto passava para o quarto de meus Pais. Também alli havia um tabique de madeira fazendo um quartinho menor que era o quarto de vestir de Mamãi, janellas para o terreirinho... vidraças de suspender, presas no meio da altura com borboletas e folhas de madeira envernizadas fechavam as janellas. Os trincos eram muito bons, em ferro; prendia em cima com um gancho e descia em varão que virava e prendia no meio, atravessando sobre a outra folha de madeira. Em todas as outras fazendas, n’aquelle tempo, eu via só tramelas de madeira; uma em baixo e outra em cima, tinha que ser aberta com um pau ou bengala” (essa descrição é da casa antiga, não do casarão construído em 1897)

Na verdade, diferente da afirmação de Marina Maluf, Tia Zila, como é chamada por todos os descendentes, mostra um lado feminino ao contar sobre seu amor à primeira vista por Amadeu. Observa-se também que o papel da mãe Elisa era o de cuidar do casarão e da educação dos filhos – um matriarcado dentro de casa. Vovô Cândido se ausentava, passava tempos em São Carlos. Uma das netas de Elisa, Toty Lacerda de Figueiredo Mello confirma um “arranjo” no casamento – vovô Cândido esperava que Elisa cuidasse dos filhos e da casa e ele tinha liberdade para aproveitar a vida fora de casa.

As mulheres da família Lacerda são firmes, dão enorme valor para a família. Uma linhagem de mulheres de enorme garra que podem ser definidas por algumas palavras – disciplina, cuidado, discrição. Não são grandes demonstradoras de afeto por gestos nem palavras, mas nos detalhes com a casa, com o jardim, nas comidas e doces, no receber, nos presentes. Tia Zila, segundo vários depoimentos, era uma pessoa extremamente afetuosa com os filhos, netos, bisnetos e sobrinhos.

Tia Zila, muito apaixonada por Amadeo durante três anos, confessa: ... não queria que vissem que eu estava "presa" e enlevada por Amadeo. Aquilo era um segredo guardado no fundo do meu coração... Amadeo sai do quarto, vai para a sala de jantar. Servem-lhe café, vai para o terraço, me dá "bons dias" e me convida a passear. Eu palpitei que devia ser uma passeio maior e saímos pelo caminho da Amoreira que ia beirando o terreiro... Já estávamos bem longinho quando ele me diz com voz muito emocionada: "Quero saber se você consente que eu vá pedi-la em casamento ao seu Pai." Eu refleti um instante disse: "Sua Mãe o que diz a isso?" Responde ele: "Mamãe faz o maior gosto nisso". "Então eu também fico muito contente." Nos olhamos discretamente; ele não me tocou nem na mão; continuamos a andar procurando conversar mas pouco falamos....

Marina Maluf observa hábitos descritos nos diários, como “os espaços de separação entre proprietários e empregados. Ela (Brazilia) registrou que todos os dias, no final da tarde, depois do passeio da mãe, toda a família sentava-se no terraço para tomar café.”

‘Ao escurecer chegava o empregado, nunca se teve administrador, era um Fiscal ou ajudante. Durante annos foi o Marciano Casanova, mulato antigo escravo. Depois foi o Antonio Lourenço, português... Mas hoje quando penso como era, eu estranho. Papai nunca fazia entrar, nem sentar-se esses empregados. Elle tinha os serviços já tão certos e penso que já teria durante o dia corrido tudo que já estava a par, então aquella conversa era só para dar as ordens para o dia seguinte e fazia rápido....Si o café chegava na hora, serviam uma chicara ao Fiscal que tomava alli mesmo em pé, dava boa noite e se retirava.

O hábito de conversar sobre o que seria feito no dia seguinte era comum em todas as fazendas da época e assim permaneceu até os anos 80 do século XX. Correr a fazenda à cavalo todos os dias foi, aos poucos, substituído por carros ou jeeps. Muitas fazendas passaram a ter gerentes além do administrador e a região de São Carlos “abandonou” o café depois de seguidas geadas e a cana tomou conta da paisagem.

Trechos do livro de Tia Zila sobre a vida na Fazenda Paraizo e dos tempos em que iam passar temporadas em São Paulo, seguem reproduzidos como registro de uma época e dos 150 anos da fazenda.

“Eu tinha 6 anos quando chegamos na Fazenda Paraizo, 1893. Não me lembro se descemos na estação de São Carlos ou na estação de Floresta que ficava mesmo nas terras da fazenda. Vangila tinha 4 anos e Asdrúbal tinha 2; eram meus companheiros o dia inteiro. Ele tinha cabelos loiros, cacheados, era bem claro. Carinha cheia, quando corria, por fora ficava bem corado. Nós o achávamos lindinho; era manso e bonzinho. Eu e Vangila tínhamos a cor de Papai! Até uma vez na Estrada de Ferro, em viagem, nos encontramos com tio Antonio Carlos (Conde do Pinhal). Ele veio logo conversar com meus pais, nos fez festa. Mais tarde soubemos que ele dissera: “nem a brancura de Elizinha pôde com a cor dos Lacerdas.” E eu digo hoje: mal sabia o tio Antonio Carlos que nem o vermelhão de Amadeo pôde com a palidez dos Lacerdas, pois que a maioria de meus filhos é pálida e morena.

Lembro-me tanto da casa no Paraizo. Entrava-se numa sala que chamavam de alpendre. Esse alpendre tinha as paredes pintadas, penso que era a óleo, pois era lustroso e formava quadros com um frizo de cor mais escura e, no centro do quadro, era todo riscadinho, imitando mármore. Tinha um sofasão com palhinha no assento e no espaldar, espaldar alto e braços de madeira. De cada lado do sofasão, uma mesinha retangular de 1 x 50, pernas torneadas, com uma prateleira entre o chão e o tampo da mesa. Em cima havia dois vasos, um rosa, outro cor de café com leite; pareciam vidro grosso, opaco, a beirada, digo, a boca toda recortada e doirada. Na outra mesinha havia um lampião que acendia com querosene. Tinha mangueira de vidro e abajour de porcelana branca com uma paisagem em cor, uma casinha, árvores, riozinho. Havia ainda outras cadeiras com assento de palhinha, mais simples. Em madeira forte, envernizadas, cor avermelhada. À direita entrava-se na sala de jantar. Era grande, tinha duas janelas para a frente, uma janela de uma porta para o lado de trás que era como um terreirinho. Terra bem batida, calçada de tijolo abeirando a casa. Afastado de casa uns oito ou dez metros havia um muro, subia-se uma escada de tijolos, de uns dez degraus e dava no terreiro de café que era bem grande, uns 200x50 metros. No terreirinho, bem encostado no muro, havia um jardinzinho, só tinha dálias de várias cores; protegia o jardinzinho uma cerquinha com tela de arame. Aos domingos, mamãe enfeitava os vasos com essa dálias que eram pequenas e jeitosas e a folhagem era galhinhos de alecrim, estes são muito jeitosos, em forma de palmas; folhagem bem lustrosa. E ... de noite o alecrim dormia, tanto o que estava nos vasos, como a arvore inteira. Ficava bem fechadinho! Todas as folhinhas dobradas. Mamãe nos mostrava e dizia “elas vão dormir”. Só havia um étagère na sala de jantar: tampo de mármore, duas gavetas, armário embaixo, para cima do mármore duas prateleiras em madeira. Usava-se, nesse tempo, forrar as prateleiras com toalhinhas brancas e crochê na beirada que ficava aparecendo. Ali se arrumava os copos que estavam em uso. Na prateleira de cima, cada noite, via-se enfileirados uns seis castiçais em latão amarelo com velas bem brancas e grossas. Umas inteiras, outras já gastas, mas bem limpas. Dois dos castiçais tinham velas “Clichy”; eram para papai usar na mesa do escritório. De noite, cada um pegava seu castiçal e ia para seu quarto….

… Esses fechos da casa no Paraizo eram já mais civilizados. Os meus tios Antonio e Juca, pelo que me lembro, gostavam de tudo bem arrumado, tinham na fazenda um carpinteiro alemão que fez todas as mobílias, e um ferreiro que tinha uma tenda completa onde fazia as ferragens;

fazia as carroças e carroções ali mesmo. Isso, penso, que alguns anos depois pois que ao começarem era só uma grande mata, onde fizeram os ranchos e plantaram os primeiros cafezais. Preciso pedir a José Lacerda as datas e os dados todos do começo da fazenda. Na sala grande que era toda empapelada, assim como os dormitórios, via-se nos cantos uma coluna roliça. Papai me contava que eram os esteios do rancho pois que fazia-se um rancho coberto de sapé. Só mais tarde, quando já tinham feito uma olaria, é que tiveram telhas para substituir o sapé.

E as paredes do rancho eram feitas de barrote. Chamavam barrote em gradeado, feito com ripas de coqueiro bem amarradas nos cantos e nos esteios. Se o rancho era muito grande, havia esteios no meio do comprimento do rancho. Esse gradeado era coberto com terra bem molhada; se a terra era meio piçarra, grudava melhor. Esse era o princípio.

Algum tempo depois, já cobriam as paredes com reboque feito com areia. se tinha cal nesse reboque, eu não sei. Não tenho mais ninguém daquele tempo para me contar. Os meus tios eram tão caprichosos que forravam as paredes com papel. Me lembro muito bem do papel da sala grande: tinha bananeiras verde claro. Os do escritório de papai era marrom e doirado. Nos quartos era papel com ramagens, não me lembro a cor. Havia três quartos para hóspedes. Boas camas, poucos armários. Havia um piano Pleyel….

… O que era primitivo e péssimo eram os sanitários. Só havia fossas, com uma banca de madeira em cima e dentro de uma casinha. Uma lá do lado do corredor da cozinha para os empregados e uma no terreirinho para nós. De vez em quando, papai mandava por cinza dentro das fossas, outras vezes, cal. Vim também porem uma pedra azul dissolvida em um balde de água; penso que era sulfato de cobre. Papai dizia “é muito venenoso; não deixem nada no balde”. Imaginem o que aconteceu uma vez. Ninguém o viu cair, mas ouvia-se o miado do mísero bichinho. Só em pensar que ia morrer ali afogado, nós ficamos muito aflitos! Tanto pedimos que mamãe chamou o Severiano e que trouxesse uma escada. Então o rapaz foi descendo devagar, agarrou o gatinho pela pele do pescoço e salvou-o. Mas... foi necessário dar-lhe um grande banho com água e creolina. Depois o pusemos debaixo de um grande cesto, no sol, para secar, senão iria se meter debaixo de um móvel assim entanguido…

… Mamãe sentava-se numa marquesa na sala de jantar onde havia melhor luz. Penso que algum estaria com calo no pé, pois tinha perto um vidrinho de Mainardina. Não sei como, estando perto de uma vela, pega fogo no vidrinho, faz grande labareda e Mamãe que tinha lavado os cabelos e estava com eles ainda soltos. Era uma cabeleira enorme. Foi um susto, pois quase o fogo pega nos cabelos. Esse serviço feito, nós íamos para cama. Uma vez tínhamos inventado um brinquedo muito bom. Cortávamos uma grande cidra pelo meio tirávamos o miolo e ficava como uma tigelinha. Enfiávamos um barbante em 2 furinhos, como se fosse um baldinho e pendurávamos esses baldinhos num prego, na ripa de uma cerquinha que tinha perto de casa e onde tinha uma boa sombra de amoreira. Estava uma lindeza, muitos baldinhos pendurados. Mas no outro dia Vangila apareceu doente com indigestão, Mamãe procura a causa e disse que era o miolo da cidra que Vangila havia comido e proibiu o brinquedo.

Debaixo da mesma amoreira Papai havia amarrado um balanço, novinho, cordas bem fortes. Era uma delícia aquele balanço! Um dia eu me pus em pé no assento do balanço e tão forte me balançava que perco o equilíbrio e caio em cheio com o peito no chão. Penso que desmaiei, pois não vi mais nada. Só me lembro de estar deitada na sala de jantar, no sofasão, e ouvia Mamãe dizer: “vão já cortar as cordas e tirar o balanço da árvore” E acabou-se aquela delícia de balançar. Me parece que foi um pouco nervoso, exagerado, pois que a vida toda vejo crianças se balançarem e nada acontece. Aquilo foi mesmo muito descuido ou reinação minha.

Uns 3 anos depois de estarmos no Paraizo, lembro-me que ouvia Papai e Mamãe falarem em casa nova. Papai sempre fazendo desenhos. Bilu já tinha nascido; era um lindo menino mas Mamãe não teve leite para amamentá-lo, ele não se deu bem com o leite de vaca e estava muito doente. Veio vovô Justiniano visitar-nos. Ele voltou logo para as Palmeiras e de lá mandou uma moça italiana chamada Ângela. Veio com o filhinho pequeno, tinha tanto leite que dava para seu filho e para Bilú. O marido de Ângela não sei se veio junto ou se ficou nas Palmeiras. Bilú logo sarou, engordou e então começou a tomar ma madeira com mingau de Phosfatina Fallière, receitado pelo médico de São Carlos, Dr. Silva Rodrigues. Eram umas latinhas com um pó como cacau bem claro, vindo da França e era muito gostoso.

Mamãe me ensinou e eu fazia as mamadeiras para Bilú numa panelinha de ágata azul, no fogareiro com álcool, ali mesmo na sala de jantar. Ás vezes punha álcool demais no fogareiro, que era bem primitivo, e custava a apagar. Fazia uma labareda e eu tinha tanto medo. Tinha só 8 anos. Bilú era muito exigente, não queria ficar no carrinho. Era um lindo carrinho de junco todo forrado de oleado e com bom colchão e roupas bonitas. Mas o talzinho chorava e quando Mamãe estava muito atarefada, eu tinha que empurrar o carrinho de um lado para o outro da sala. Depois eu tinha que dar a lição com Mamãe e vinha Vangila empurrar o carrinho…

… Asdrúbal já tinha cortado os cachos e já vestia calcinha e blusa russa. Era muito bonzinho, mas Bilú era terrível, não queria ficar com a pajem, trazia Mamãe de canto chorando. Vangila era boazinha, nunca brigávamos, mas houve algum tempo que Vangila teve “ataques de bichas” era como dizia o médico. Ela acordava gritando e chorando, sendo necessário esfregar-lhe nos pulsos e nas frontes vinagre com folhas de hortelã. E foram tantas vezes que Mamãe já deixava no quarto o tal vinagre com folhas de hortelã e eu mesma aplicava em Vangila, até que Mamãe se acordasse e logo tudo serenava e continuávamos a dormir.

… No Paraizo as conversas de casa nova continuavam. Mamãe nos ensinou a ler, escrever, contar e a Geografia; o que eu me lembro, mamãe ensinava muito bem. Nos mostrava no Mapa. Sabíamos “na ponta da língua” como se dizia, as 5 partes do Mundo, mares, países, rios, lagos, montanhas, cidades. Nos mudamos para a casa nova no ano de 1897. Então tivemos a primeira Professora. Senhora alemã, Fraulein Walsman. Nos ensinava português, francês, aritmética, geografia, historia Santa, piano e ainda trabalho com a agulha. Essa senhora era tratada por meus Pais com toda consideração e bondade; ganhava quatro contos por ano, livres, viagens, passadio, tudo por conta de Papai. Tinha um bom quarto, uma sala para dar as aulas e um terraço com bonita vista. Algumas vezes estávamos em aula e ouvíamos os gansos do lago em grande agitação e cantoria. Pedíamos licença para a Fraulein e íamos olhar na janela; era quase sempre uma visita que chegava de trolley ou algum passante como o Sr. Joaquim Alves; esse vizinho tinha licença para passar pela nossa fazenda para encurtar o caminho. A curiosidade satisfeita, voltávamos para nossas carteiras, mas Fraulein tinha algum trabalho para pôr nossas cabeças no estudo novamente. Tivemos outras professoras. Uma delas era uma bonita moça, dizia-se nobre chama-se Elvira Von Bragdorf. Mas não era boa de lecionar e não durou muitos meses. Tivemos uma velhinha muito boazinha, Fraulein Josefine. A melhor foi Fraulein Paulina Perger; essa estivera 20 anos no Rio, lecionou as filhas do Conselheiro Lafayette e os filhos do Barão de São Clemente. Essa gostava de ler o Jornal do Comercio e conversava com Papai e Mamãe sobre política e tudo mais. No dia de São João inaugurou-se a casa nova. Fizeram lindas festas no terreiro. Sr. Estevam e Nhá Tertuliana eram muito sabidos em costumes, cantigas e danças. Fizeram o que eles chamavam Congada. Eram danças onde aparecia um boi feito de pano; dois homens iam dentro e faziam proezas. Homens e mulheres vestidos como rei, rainha, pajens; cores vivas e roupas vistosas. Mamãe mandou fazer tachadas de doce de batata, abóbora, cidra, laranja, pé-de-moleque e cocada. Leitão assado e mais tanta coisa! Arrumaram uma mesa comprida com tábuas e cavaletes, coberta com pano branco banco de taboa de cada lado e ali serviram um lauto jantar para toda a colonada e para todo o pessoal da fazenda. Seguiu-se o baile, samba e Congada, ali mesmo no terreiro, na frente da casa nova. Isso foi de tarde; pela manhã tinha havido uma bonita Missa rezada pelo padre Victor e assistida por todos da fazenda.

1897. Continuávamos a estudar na fazenda com professora. Pouco saíamos da fazenda. Passeávamos muito a pé com Mamãe. As professoras não gostavam de sair do jardim; tinham medo dos bichos de pé. Só uma delas, a Mme Perger, era já bem idosa, mas muito forte. Tinha morado no Rio 20 anos. Essa saia cada dia de tarde, mas gostava de andar bem depressa e sozinha. De volta do passeio a pé, nos sentávamos no banco do terraço que era bem cômodo. Havia ali perto duas cadeiras de vime que eram para Papai e Mamãe; naquele tempo havia sempre uma pequena diferença entre os grandes e os pequenos. As cadeiras melhores, os doces mais finos, o filé, o peito de galinha! Primeiro serviam-se os Pais. Hoje, vejo crianças na mesa dizerem logo: só quero carne branca.

… Não sei como é que Mamãe gostava da rede, pois estava sempre encoletada. Embora não fosse apertado, tinha barbatanas no colete. Asdrúbal, que nós dizíamos Loti, sentava na mesa grande com o livro “Mon Journal” e tampava os ouvidos com o polegar e as mãos apoiando a cabeçorra, cabelos sempre cortados rente. Papai cortava com a máquina. Ficava ali entretido com a leitura até as 8 ½ h. A essa hora Papai vinha do escritório para tomar chá; já ali estava arrumado com Pão de Ló de Jacarehy, biscoitos de polvilho, etc. Era a mesma fartura que os lanches de hoje. Os gatos ficavam no terracinho e logo que se apagava a luz do escritório, eles se esfregavam na porta da sala de jantar para Papai não se esquecer deles. E era cada dia a mesma coisa: ganhavam um prato de leite e pão ali no chão do terraço. Nesse tempo já não tinha mais o Sr Romão; meu gatão querido já tinha morrido.

Tinha o Capi, cachorrinho de raça Mobs, muito bonitinho. Era de Vangila; dormia no corredor da casinha, debaixo da escada, numa caminha com colchão e lençol. As 9 h subíamos nós 3 e nos deitávamos em dois quartos que davam porta para o quarto de nossos Pais. Eu ainda lia um pouquinho na cama; Vangila ficava em pé na cama, pegava as cobertas nos ombros, se enrolava nas mesmas, com o pé puxava bem a ponta do lençol, então deixava o corpo cair sobre os joelhos e depois deitava-se. Parecia um cartucho ali na cama.…

Em 1897 nos mudamos para a casa nova do Paraizo. Não me lembro em que mês foi isso; talvez no mês de Junho, pois nas festas para a inauguração da casa, houve fogueira, fogos e danças no terreiro. Também não me lembro como foi a mudança, nem a impressão que tive dormindo no sobrado; no quarto novo era tudo azul, isso eu me lembro; entrava-se pelo quarto de meus Pais ou pelo quarto dos irmãos. Bilú já tinha quase 2 anos, era um lindo menino, tinha uns olhos bonitos, cabelos cacheados, uma boquinha vermelha. No terraço da sala de jantar nós o medíamos; era justo da altura da grade. Andava sempre com umas camisolinhas muito bonitas, espécie de vestidinho, pois naquele tempo os meninos só vestiam roupa de homem de 5 a 6 anos para cima. E até essa data de cabelos cacheados e compridos.

De noite, Mamãe na rede com Bilú no colo, ali no canto da sala de jantar. Asdrúbal lendo “Mon Journal” na mesa grande, eu e Vangila fazendo algum trabalho de agulha, sentadas nas cadeirinhas de vime que traziam do terraço. Durante alguns meses houve coisa que nós meninas achávamos graça. Chegava na porta da sala a preta Delfina, ótima cozinheira e dizia: “Sia dona Eliza, já acabei”. Era para ganhar um cálice de pinga e ia dormir. A Delfina tinha o vício de se embriagar, então descobriu esse jeito. Eu me levantava, tirava ali do armário a garrafa, enchia o cálice e entregava a Delfina. Ela fazia uma cara radiante, bebia e ia estalando a língua e gingando ou se requebrando toda. Ia direto para o quarto, dormia e amanhecia bem. E assim durante mais de um ano a Mamãe pôde conservar a Delfina. Pois quando ela quis sair, me entregou um bauzinho com algumas roupas e 1 quadro de santo. Foi para Capivary e nunca mais voltou. Nem me lembro o que fiz do Santo e das roupas da pobre Delfina.

… Todas as tardes saíamos para passear a pé. Um caminho que gostávamos muito era o seguinte: Perto da máquina (casa da máquina de beneficiar o café) havia um pulador. Chamavam um pulador uma escadinha dos dois lados da cerca, para não ter porteira, pois só deviam ali passar pedestres. Descíamos no pasto atrás da Serraria, ali sempre cheio de toras de madeira, e muitas vezes a grande serra trabalhando, outras só a serra circular, que cortava a lenha e outras coisas menores que as toras. Entrávamos, dávamos boa tarde ao Agostinho: aquele cheirinho de madeira serrada. Saíamos do outro lado e descíamos pelo pasto até o rego d’água do Monjolinho. Eu achava uma beleza aquele riozinho de água clara, mesmo cristalina, por cima de umas pedrinhas. Passávamos a ponte e, antes de seguir o passeio, virávamos de lado da casinha do Monjolo. Mamãe abria e entrava para ver se estava limpo e em ordem. Saíamos, continuávamos até a colônia.

Eram 5 casas unidas onde moravam só pretos. A primeira casa de Manoela... não me lembro o nome do marido. Ela era muito feia e tinha o corpo igualzinho com os figurinos d’aquele tempo: o traseiro bem empinado e o busto bem cheio, mas caindo sobre a cintura. Mamãe tinha às vezes ataque de riso quando lembrava da Manoela. Outro casal era Clemencia e Benedito, muito bons; tinham vários filhos. Outro era José Mulato e Felicidade. Essa era muito bonitinha, sempre limpinha, vinha nos falar tão sorridente. Mamãe a chamava de “La Rieuse”. Os filhos: Antonio, Rafael, Manoel e Miguel. Dava-se uma prosinha na frente da Coloninha, passávamos n’outro pulador e entrávamos no cafezal da Biquinha; ali era a nascente d’água muito clara; ao pé era o pé de limão bravo de onde se tirava as folhas para fazer o chá medicinal. Saíamos da Biquinha e íamos pelo carreador abeirando a cerca até a porteira do Tanque (Tanque chamam hoje “Lago”); entrávamos e abeirávamos o Tanque até chegar em casa . Levava 1 hora esse passeio; era só chegar e sentar no banco do terraço e esperar o cafezinho.

Chegava Papai sempre muito encalorado; pedia os chinelos. Ao escurecer chegava o empregado; nunca se teve administrador; era um fiscal ou ajudante. Durante anos foi o Marciano Casanova, mulato antigo escravo… Papai nunca fazia entrar nem sentar-se esses empregados. Ele tinha os serviços já tão certos e penso que já teria durante o dia corrido tudo que já estava a par; então aquela conversa era só para dar as ordens para o dia seguinte e fazia rápido. Se o café chegava na hora serviam uma xícara ao Fiscal que tomava ali mesmo em pé, dava boa noite e se retirava.

… Todos os anos íamos para São Paulo onde passávamos uns 2 meses. Morávamos na Rua Brigadeiro Tobias, bem em frente à Beneficência Portuguesa. Nos Domingos ouvíamos Missa ali na Capela da Beneficência. Era Missa curta, sala boa, não muito cheia. Via-se sempre ali o Barão de Piracicaba (tio Rafael) com 3 filhas, Eliza, Sofia e Tuda e o filho José que era ainda um rapazinho. O Barão de sobrecasaca e cartola, as filhas muito bem vestidinhas. A família de Dna Victoria Almeida Lima, dos Almeida Prado, dos Nicolau Vergueiro, Sr. Silvano Anhaia, Sr. Camilo Levy, Sr. Prof. Luiz Chiafarelli. Esse não era na Missa que eu via. O Prof. Chiafarelli morava bem em frente a nossa casa; ouvia-se piano o dia inteiro e Papai não gostava muito.

No ano de 1900 Papai comprou outra casa nessa mesma rua. Para isso fez negócio com o Sr. Eduardo Prates (mais tarde conde de Prates). Ouvi falar do negócio: Papai deu a casa na qual morávamos e mais 35 contos de réis. A casa estava muito estragada e teve que sofrer grandes reformas que custaram bem caro, mas não sei quanto. Ficou uma ótima casa onde meus Pais moraram uns 30 anos, mudando-se depois para Higienópolis. Em São Paulo Mamãe saia comigo e Vangila para visitar os parentes. Chamava um carro. Era um carro de praça, forma Vitória; custava 5 mil réis a hora e 3 mil réis a corrida. Mamãe tomava por hora. Os parentes primeiro a serem visitados eram tio João Batista e tia Sophia, tio Lulu e tia Anna Flora (os Barões de Mello e Oliveira), tia Júlia que já era viúva e morava com prima Sebastiana e Dr. Paula Machado, tia Mariquinhas (Baronesa de Piracicaba). Esses eram tios de Mamãe. Em casa do Vovô Justiniano e Vovó Gabriella íamos quase todos os dias.

Os parentes de Papai eram os Barões de Arary, os tios João Soares, Chico Soares, Juca Soares, prima Nicota Penteado, Ignácio Penteado, tio Joaquim Camargo. Ah! Esse era uma delícia. Tinham uma linda chácara na rua Vergueiro, dizia-se Villa Marianna. Era preciso ir de carro até a rua São Joaquim; ali tomava-se o trenzinho a vapor; uns 3 bondes abertos e logo chegava-se na Chácara Conceição; era tio Joaquim, tia Dasdores, tia Candinha, Julieta, Judith, Romeo, Olavo e Gilberto. Esse morreu pequeno. Nossas companheiras eram as duas meninas e Romeo. Olavo não gostava de brincar. Uma linda chácara e muito bem tratada; lindo arvoredo, muita flor, uma estufa cheia de begônias, avencas e parasitas. No fim da chácara tinha até vaca de leite, uns animais em lugar cercado e bem arrumado. Ali passávamos o dia. Acabada a temporada em São Paulo, Mamãe aprontava as malas e voltávamos para o Paraizo .

Na casa nova do Paraizo tinha tudo, mas os talheres de prata eram os mesmos que se usava em São Paulo e na fazenda. E também alguma roupa de cama e de mesa mais fina que era para quando recebia-se hospedes. Deixava-se em São Paulo uma boa caseira; era sempre um casal de confiança. O trem saia da estação da Luz às 5:20 h da manhã. De véspera seguiam as malas despachadas como bagagem e já se encomendava dois carros: Papai, Mamãe, a Professora e nós 4 e mais as malinhas e cestas de farnel! Paçoca, arroz, virado de galinha e outra galinha frita. Tudo arrumado em guardanapos, trouxinhas bem amarradinhas. Levava-se pratinho de louça e talheres. Não se usava pratos de papelão. Garrafas com água, copos. Tudo muito direito e farto. No trem nada havia para se comesse e eram muitas horas de viagem. Chegada a hora, Mamãe abria a cestas e as trouxinhas, arrumava em cada pratinho e ia dando a cada um com guardanapo e garfo.

… Descia-se na Estação de São Carlos e seguíamos de trolley para o Paraizo. Não me lembro em que ano, talvez em 1896, havia grande epidemia de febre amarela no Rio, em Santos, São Paulo e várias cidades do interior. São Carlos também tinha a tal da febre. Então Papai nos fez mudar de trem na estação Água Vermelha, que era um trem menor que passava na estação Babilônia e Floresta onde descíamos; já era nas terras do Paraizo e ali encontrávamos os trolleys da fazenda.

Nessa temporada em São Paulo os nossos passeios eram, de manhã, no jardim público da Luz. Íamos a pé com a professora. Levava-se pão para dar aos cisnes e aos veados, e nozes ou amêndoas para dar aos macacos. Eu gostava muito, achava divertido. Eu, Vangila e Loti; Bilú ainda era muito pequeno, ficava em casa. Outro passeio que eu gostava muito era com Papai e Mamãe e nós duas. Íamos a pé até a cidade, o triangulo, como diziam, subíamos a rua São João que era estreita e feia; no largo do Rosário (hoje praça Antonio Prado) tinha a igreja do Rosário. Virávamos pela rua São Bento até a rua Direita. Não havia a praça do Patriarca; o Viaduto do Chá desembocava já na rua Direita. Ali na esquina tinha a casa dos Barões de Três Rios e outras casas de sobrado, todas residenciais. Subia-se a rua Direita até a rua 15 de Novembro. Contavam-se que essa era antigamente a rua da Imperatriz, mas no meu tempo já era a 15 de Novembro. Íamos pela rua 15 até chegarmos no “Progredior”. Era uma sala grande onde havia mesinhas e muitos homens tomando cerveja. Atravessando a sala, ficávamos num terraço onde nos serviam sorvetes. Desse terraço tinha-se bonita vista para uma parte da cidade mais baixa e iluminada.

... Uma vez, nesse passeio, estava um homem na calçada ali na rua 15, convidando para entrar. Papai nos fez entrar, era só uma cortina na porta. Sentamos, filas de cadeiras, uma sala pequena. Via-se numa tela branca figuras se movendo. Chamavam lanterna mágica. Tudo só preto e branco, figuras muito simples e ingênuas; não tinha história. Na saída vendiam uns livrinhos moles que se fazia virar ou desfolhar segurando com o polegar. Nesses via-se também figuras se movendo. Papai comprou e nos deu; era uma menina pulando corda. Outro menino dando milhos às galinhas. Esse foi o começo do cinema. Para voltar para casa, tomava-se o bonde ali em frente ao Mercado que era onde é hoje o Correio. Bonde de burro; dois burros puxavam. Quando chegava numa subida, havia ali um homem e um burro. Mesmo sem o bonde parar, o homem atirava a rédea ao cocheiro e enganchava a balancinha do burro no bonde. Terminada a subida havia outro homem que retirava a tal balancinha e pegava a rédea que o cocheiro atirava. Esses homens não usavam uniformes e sempre de chapéu na cabeça; os cobradores tinham boné e andavam no estribo dos bondes. Depois do ano de 1900, ou pouco antes, apareceram bondes elétricos, grandes, bonitos, mas os cobradores ainda andavam pelo estribo. Pagava-se 200 réis e nos dias de muita gente esse bonde puxava um pequenino onde pagava-se só 100 réis; eram chamados os “caraduras”. Creio que aproveitavam para isso os bondinhos de burro.

De tarde era costume ficar na janela tomando a fresca e vendo gente passar. A família toda ali proseando.

… Voltemos a relembrar a vida calma e boa do Paraizo. Papai falava em aumentar os cafezais pois que, atravessando a estrada de ferro tinha a mata e terras muito boas. Levaram a derrubar essa mata, deixaram secar e, quando menos esperávamos, Papai nos disse que ia fazer a queimada, ia por fogo na derrubada. Mamãe ficava muito cuidadosa. Essas terras ficavam muito longe, talvez alguns quilômetros distantes mas bem em frente a casa do Paraizo. Vimos todo o fogo. Um espetáculo bonito mas selvagem e assustador. Subiam aquelas labaredas fazendo como um caracol no ar, muita fumaça e deslocava o ar provocando forte vento. Papai tinha mandado fazer aceiros de todos os lados para defender a nossa mata vizinha e outra fazenda. Só a tardinha Papai chegou em casa, muito cansado, tendo deixado lá na queimada uns homens de confiança para vigiarem caso o fogo passasse para o vizinho. E a noite foi lindo de se ver: todo aquele chão era um braseiro só. Aqui e ali levantava uma labareda; de outro lado com o vento eram faíscas que subiam para o céu. Estávamos achando muito lindo mas quando Papai nos contou que estava triste pois o Maroto tinha sumido e provavelmente se meteu na roçada atrás dos preás e das lebres e teria morrido queimado. O Maroto! Um cachorro vira-lata mas tão bonzinho! Nos acompanhava nos passeios, era amarelo com listas pretas, talvez mestiço de perdigueiro e por isso só queria caçar. Pobre Maroto! Papai disse: “eu devia ter mandado prende-lo aqui pois era certo que ia correr atrás dos preás e das lebres”. Acabou-se o nosso Maroto. Esse ano Papai disse que ia plantar milho e abóbora na roçada e que ia alinhar para plantar café. Já havia guardado algum café cereja para essa plantação. Para alinhar o café Papai arranjou uma cordinha bem comprida e, de espaço em espaço, amarrava nessa cordinha um pedaço de baeta vermelha. Mamãe já havia cortado as tiras bem iguais e penso que eram colocadas na cordinha, com 18 palmos de distancia uma da outra e ali amarradas. Diziam plantar café a 18 palmos, outros preferiam a 18 palmos para ficarem as árvores mais juntas e assim menos chão para carpir pois na sombra da árvore o mato crescia menos. Mas ali a terra era nova e muito fértil; as árvores ficaram enormes e não era praguejado. Como não havia geada no município de São Carlos, uma cafezal de 3 anos já produzia café, Naquela mesma roçada, com aquela quantidade de paus, árvores e galhos que escaparam do fogo, cortava-se pauzinhos, todos do mesmo tamanho, penso que uns 40 centímetros, dizia-se 2 palmos, e com esse pauzinho cobria-se cada cova onde se havia posto 6 grãos de café cereja, já murchinhos, quase secos. Essa cova devia ter 2 palmos quadrados e 1 palmo de fundo. Penso que não levava 3 meses apareciam umas folhas redondas que diziam “orelha de onça” e algum tempo mais apareciam 2 folhinhas pontudas e diziam “está cruzando”. Então já era necessário abrir um pouco mais o tapume tirando os paus e pondo 2 em um sentido, 2 em outro sentido atravessado.

terça-feira, 30 de março de 2010

segunda-feira, 15 de março de 2010

Depoimento de Roberto Figueiredo Mello - Memórias da Fazenda Paraizo




A Fazenda Paraizo é parte fundamental da minha formação.

Conta minha mãe, Toty, que eu tinha meses quando para lá fui pela primeira vez, num cestinho de vime.

Como minha relação com a Fazenda começou muito cedo é muito desafiador precisar cronologicamente essas lembranças tão remotas... Feita essa ressalva, vou dividir minha narrativa em três partes:

A mais antiga com as memórias de infância que são mais imprecisas e, muitas vezes se confundem com relatos ouvidos dos outros. Numa segunda parte que corresponde à adolescência, são tão fortes as recordações que sou capaz de relatar detalhes... E uma terceira que corresponde já à vida adulta.

Vamos lá aos fatos !

Uma das mais antigas lembranças que tenho é de uma festa de São João. A enorme fogueira montada logo abaixo do grande terreiro de café, o sanfoneiro, todos os colonos presentes, pipoca, quentão, que eu não podia tomar, e o famoso mastro....

Eu me lembro de ter assistido à colocação do mastro com o clássico triângulo na ponta com as imagens dos três santos, Antonio, João e Pedro e de ter participado, com os meninos da colônia, da tradição de jogar moedinhas no buraco onde iriam colocá-lo. Lembro-me do pau de sebo e das brincadeiras com os que escorregavam ao tentar subir. Os adultos soltavam os enormes rojões e eu admirava a coragem para colocar fogo e impulsionar a vara para o alto.

Numa dessas noites, talvez na primeira festa do gênero da qual participei, o Japi, um cachorro peludo amarelo, meio pastor alemão e que andava com o Mané Velho – nascido na Fazenda e descendente de escravos – ficou tão tão apavorado com o barulho que foi parar debaixo da cama do Mané. Ele morava num quartinho no corpo da casa da administração, próximo à sala destinada à escolinha e ao lado do lavador de café original.

Outra lembrança dessa fase é a da espera ansiosa pelos fins de semana quando meu pai, Sérgio, vinha de São Paulo e nós podíamos brincar muito com ele; eu adorava brincar de fazendinha debaixo da sombra da gigantesca figueira, olhando para o lago, fazendo vaquinhas de chuchu ao lado de meu pai e de minha mãe, os dois sentados nos bancos de madeira cheios de um musgo verdinho que parecia veludo.

Já um pouco mais velho lembro-me de longos passeios a cavalo com o Zé Mion, administrador da fazenda e talvez o meu primeiro herói depois de meu pai. Sendo o mais velho ia só com ele pois meus irmãos eram bem menores e nossos primos nessa época ainda não iam para lá junto conosco.

Corríamos a fazenda inteira juntos, eu montado no Pirata que era um cavalo da minha mãe, muito manso; adorava ouvir as ordens dadas aos colonos a respeito do trato com o café. O Zé Mion sabia mandar e era muito respeitado. Uma das decepções mais fundas da minha vida foi descobrir, já adulto, que ele não merecia mais a confiança nele depositada e teve que deixar a fazenda. Nunca mais quis vê-lo.

Eu ficava muito no terraço da casa dele, Zé Mion, e ouvia as notícias trazidas pelos que vinham da cidade e passavam obrigatoriamente por lá . Paravam montados em seus cavalos na frente do paiol de milho e ficavam desfiando as novidades.

O mais falante deles era o Antoninho Leme que tinha um cavalo bonito com um baixeiro todo colorido; ele era irmão do Calixto, o cerqueiro que morava na única casa remanescente da chamada colônia dos pretos. O Calixto era retinto e tocava violão, uma espécie de Milton Nascimento do local.

Esse terraço, numa fase posterior, era frequentado quase todo final de tarde por todos nós, para tomar o famoso sorvete da Isaura, mulher do Zé Mion. O sorvete de açúcar queimado com compota de carambola é um sabor de infância inesquecível, acho que para todos nós primos.

A colônia era totalmente habitada e eu me lembro de famílias inteiras que lá moravam. Os irmãos Juca, que era pai do Samuel, o meu primeiro amigo na fazenda, Edmundo, pai da Ana com quem minhas primas cresceram e o Nilton. Os irmãos Ditinho, Alécio, o jardineiro do Paraizo e Lilo que alimentava os coelhos.

Eu me misturava com os filhos deles no terreiro e ajudava a tirar os pedregulhos do café que ficava secando ao sol. Tio José pagava 1 cruzeiro, será? por latinha cheia.

Dia 19 de Junho de 1960 houve a festa dos 100 anos do Paraizo. Eu tinha 11 anos e me senti importantíssimo por duas razões: a primeira porque fui designado para a tarefa de segurar o microfone para gravar os discursos do dia. Por essa razão eu apareço em tantas fotos... O que ninguém sabe é que o microfone dava choque e por isso eu apareço sempre levantando o dito cujo pelo fio para evitar os choques! A segunda razão de me sentir importante nesse dia foi ver meu pai fazer o papel de coroinha, usando seus velhos conhecimentos de Colégio São Luiz! Outros tempos, outros tempos...

Uma segunda fase começa com a lembrança de um fato muito marcante para mim. Foi o dia em que fiquei sabendo, em São Paulo, que o tio José e a tia Luly tinham combinado reformar uma casa de colônia para a família dela, e que isso possibilitaria que, daí em diante, os primos fossem para a fazenda na mesma época que nós. Até então, as férias eram divididas pelas duas famílias .

Se já gostava da fazenda, daí em diante, a espera da chegada das férias virou uma gostosa obsessão.

Dessa primeira fase com os primos eu me lembro de ir, logo cedinho, um frio danado, o dia ainda raiando, ver tirar o leite das vacas no curral. Ficávamos pendurados nas baias onde os empregados ordenhavam as vacas, muito impressionados de assistir à operação de chamada dos bezerros. Bastava abrir a portinha e falar o nome da mãe e lá vinha o bezerrinho certo. Eu nunca entendi como isso acontecia. Mistérios insondáveis da maternidade...

Lembro também de incursões pela horta onde havia o chiqueiro. Nessa horta havia uma bomba de água mecânica que tinha um aparato chamado “carneiro” que adorávamos acionar com os pés para ver a água esguichar, o que era proibidíssimo, mas irresistível...

Também era bom acompanhar a Isaura, na busca dos ovos, principalmente na Serraria e imediações, acompanhar a mágica de todo dia ter um ovo novo posto nos ninhos em lugares às vezes muito estranhos.

A principal atração, porém, era andar a cavalo. A certa altura, a disputa pelos cavalos ficou tão grande que, não havendo arreios suficientes, foi estabelecido um rodízio para que todos, grandes e pequenos, pudessem usar os cavalos.

Os grandes éramos eu, Fernando, Carlos e Marcelo. Os pequenos, Asdrúbal, Luiz, Elisa, Beatriz e Eduardo.

Nessa época o Luiz Roberto era ainda o nenê e não disputava cavalos. As meninas andavam melhor do que muito marmanjo, dois toquinhos galopando sem parar.

Eu usava, como já contei, o Pirata que era de minha mãe. O Marcelo tinha o Jardim, o Carlos usava o Pango e o Fernando o Bainho e depois o Jota .

Grande sensação foi quando o Buba ganhou um cavalo de presente de Natal da madrinha, tia Athaly; os presentes desses padrinhos eram sempre muito especiais e invejados por todos.

Em 1963, num dia em que fizemos um grande piquenique, a tia Carmen me deixou usar o Carimbo, que era um cavalo muito rápido e fogoso; daí em diante passei a andar nele, pois o Pirata já estava bem velhinho.

Também nesse ano, em Julho, pela primeira vez um amigo foi passar as férias conosco. Convidado por mim, o Leme (Roberto Leme), meu colega desde 1959 no São Luiz. Foi uma grande novidade que permitiu que, nos anos seguintes, fossem o Vergueiro (Carlinhos Vergueiro), o Max (Maximiliano Rezende) e o Celso (Celso Ramalho) que, com o Leme, fazem parte importante das memórias de infância de todos nós primos, assim como as amigas de nossas primas Elisa e Beatriz, como a Vera Heloisa, a Carmen, a Bau, a Gogó, e a Renata.

Com um grupo maior nossos interesses foram se diversificando e nossas atividades aumentando muito.

O futebol sempre ocupou um lugar de destaque em nossa família. Jogávamos todos os dias e arrumamos um campinho com traves e tudo num gramado em frente à casa da administração. Infindáveis jogos, muitas brigas passageiras e alguns momentos marcantes, como um jogo que fizemos contra os meeiros japoneses que estavam na fazenda para plantar tomate. Tenho até hoje o troféu, pois ganhamos de 7 a 2 e o Moacyr, filho do Zé Mion, fez uma pequena taça de madeira na serraria da Fazenda.

Havia tardes em que ficávamos ouvindo um programa da Rádio São Carlos que pedia que se escolhesse, por telefone, uma dentre uma dúzia de músicas que eram tocadas durante o programa. Num desses dias, fizemos tantas ligações para o programa que conseguimos colocar em primeiro lugar uma música inusitada – “Nossas Alianças”, campeã concorrendo contra grandes sucessos da época. Não sei qual terá sido a conta do telefone que tio José pagou nesse mês!

Havia uma sala que dava para o terraço vermelho da frente do Casarão que era da Vovó. Nela havia uma mesinha redonda de jogo que era muito usada por ela e suas amigas, tia Sinhá, tia Stella, Tia Mercedes, Dona Antonieta Morelli, tia Belinha, e também pela Tata, dona Elisa, governanta da Elisa e Beatriz quando pequenas e que ficou morando na fazenda por muitos anos. Jogavam Buraco horas a fio e, às vezes, recrutavam um neto para completar a mesa.

Vovó era muito alegre e comandava as amigas sem nenhuma cerimônia. Decretava qual era a hora de jogar, de passear, de tirar um cochilo e estava acabado. Se alguém não gostasse paciência... Como todas voltavam, acho que gostavam...

Depois do jantar, ficávamos sempre ouvindo música na sala grande do casarão. Sou capaz, até hoje, de reconhecer os Lp’s do tio José que nós ouvíamos tais como, o primeiro do João Gilberto, um da orquestra do Simonetti, outro da famosa boate Drink do Rio, onde o Miltinho era crooner, o primeiro do Milton Banana, Calcutá de Lawrence Walk, entre tantos. Tio José, que assumiu o posto de meu padrinho em lugar do vovô Asdrubal que morreu muito cedo, tinha um gosto musical sofisticado e introduziu a Bossa Nova na família. Eu adorava as roupas que ele me dava nos meus aniversários.

Um pouco depois, começamos a levar nossos próprios discos, principalmente eu, que sendo mais velho já frequentava festas em São Paulo. Acho que todos vão se recordar dos discos do Paul Anka que herdei de minha prima Betinha, do Peppino di Capri, do Trini Lopez latino e outros.

Com o advento da Jovem Guarda a moda era ter aula de música em São Paulo. Assim Carlos, Fernando, Celso, Marcelo, Max e eu fomos ter aulas com uma senhora que se chamava Arlete. Disso nasceu o conjunto (na época não se dizia banda....) “Pêssegos em Calda” que só teve um grande sucesso, “Piange con me”, mas, convenhamos, tinha um nome muito precursor. Aproveitávamos as férias para ensaiar no terraço vermelho e pobre de quem nos ouvisse! O único que não precisava de aulas era o Vergueiro, nascido numa família de ligações com a música dos lado materno e paterno, ele não fazia feio. Faz feio, porém, em não revelar nas entrevistas que dá hoje como músico profissional, que sua iniciação passa necessariamente pelos “Pêssegos em Calda”. Já tive a oportunidade de dizer isso a ele pessoalmente.

Em algumas noites organizávamos um teatrinho para os adultos. As performances do Max imitando o Golias (que era um sancarlense ilustre) e do Leme, com uma fralda sentado numa bacia serão sempre inesquecíveis!

Havia noites em que íamos todos à cidade numa Kombi, muitas vezes com a tia Carmem, para ver um filme num dos três cinemas de São Carlos: o Avenida, o São Carlos e o Jóia que ficava na Vila Prado – como era hábito trocavam de filme todos os dias e assim vimos verdadeiras preciosidades trash... Jamais vou me esquecer de um que se chamava “Mothra, a Deusa Selvagem” que consistia numa mariposa gigante, aumentada grotescamente por uma lupa e que trazia terror a uma cidade...

Desde essa época eu gostava muito de conversar com a tia Luly e o tio Zé Roberto e tenho até hoje algumas letras de música, em inglês, tiradas na casa deles na fazenda. Às vezes eles me convidavam para tomar um chopp (em São Paulo) e íamos ao Munchen, na Alameda Santos, pois meu pai não gostava de cerveja. São tios muito queridos e que me proporcionaram a grande alegria de ser padrinho de batismo do Luiz Roberto.

Durante o ano de 1964 o Dr. Joaquim Alcântara, pai da Gogó, foi contratado pela família para fazer uma avaliação das terras da Fazenda que redundaria na divisão amigável que vigora até hoje; digo amigável porque, comparativamente a situações de outras famílias essa divisão foi exemplar.

Claro que houve concessões de todos, mas as relações se mantiveram o que nos permitiu chegar até aqui, nós, os dez primos, convivendo e se encontrando com uma frequência desusada. Temos nossas diferenças, estilos próprios, mas nos gostamos e nossos filhos todos se conhecem, o que também é muito raro.

Vovó Beata, como a chamávamos, ficou como usufrutuária da fazenda enquanto vivesse. Mamãe ficou com as terras originalmente chamadas de Santa Cruz, daí o nome atual da Fazenda e a Tia Luly com o Jabaquara como era chamada essa parte. Ambas começaram a construir casas para viver no pedaço que lhes coube.

A casa da Santa Cruz começou muito pequena, dois quartos, sala, cozinha, banheiro e um pequeno terraço. Foi um embrião perfeito da casa que existe hoje, mérito de minha mãe que conseguiu enxergar muito na frente.

Foi também reformada a última das casas da colônia antiga, a mais próxima da nova sede, que se tornou, numa primeira etapa, nossa republica e depois, quando começaram a vir os meus filhos passou a ser usada por minha família – a “Casinha”.

As primeiras férias que passamos na casa nova foram as de Julho de 1965.

Meu pai, fazendeiro principiante, plantou café e manteve um pouco de gado. Como engenheiro, ele se irritava profundamente com a história do “choveu muito, acho que pouco”, típica dos fazendeiros tradicionais! Não perdeu tempo... Mandou instalar um pluviômetro na fazenda, instruiu o Toninho, um menino à época, de como medir a chuva, e o resultado é que temos um histórico de 45 anos de chuvas na Santa Cruz de fazer inveja aos institutos de meteorologia.

Quando da divisão, por sugestão do tio José, foi para a Santa Cruz a família de Durvalino Gallo e Eurídice, pais do Toninho e da Maria que são gêmeos e nossos caseiros até hoje. Maria casou-se com o Antonio, que meu pai fez administrador da Santa Cruz e Toninho com Leni que também trabalha conosco.

Os primos Figueiredo Mello cresceram passando férias na Santa Cruz e têm desses empregados muito boas lembranças que um dia, certamente, eles vão contar.

Em Janeiro de 1966 e também em Julho desse ano, o Celso passou as férias na Santa Cruz. Em Janeiro corremos o perigo dele não ir pois tinha quebrado o pé e estava engessado. Ele foi e jogou bola no gol as férias inteiras, para desespero do tio, Nelson Carrera, famoso ortopedista que também me socorreria anos depois. O Celso ficou amigo e médico (ortopedista...) da família toda. Casou-se com a Julieta, médica psiquiatra, e somos compadres e amigos íntimos até hoje. Dr. Caio, já falecido, e dona Rosita, pais do Celso são das pessoas que mais quero bem neste mundo.

O fato de passarmos a não mais ficar no Casarão pouco influenciou na nossa convivência. Continuamos indo para nossas partidas de futebol, para nadar na piscina onde passamos muitas horas nos verões sancarlenses. Aliás São Carlos tinha um clima espetacular, com um verão mais ameno que o de Ribeirão Preto, por exemplo, e um inverno europeu com dias lindos de céu muito azul e frios pra valer.

Às noites começamos a sair mais, nós mais velhos, para jogar snooker ou boliche na cidade. Até que eu tirasse carta, em agosto de 1966, nos valíamos das caronas dos motoristas de minha avó, Zé Coco e Zé Leite, ou do de tia Stella, Señor Vicente, um espanhol folclórico. Foi ele quem nos levou a uma apresentação do Roberto Carlos em pessoa no cine Avenida, em Julho de 1966, no auge do “Quero que vá tudo pro inferno”. À saída o Señor Vicente decretou que Kleber, um cantor local com calças boca de sino, era muito melhor que o Brasa...

O snooker fechava às 23 horas, veja só, e depois de jogar nós íamos para o Bar São Paulo, único lugar que ficava aberto de madrugada em São Carlos por ser em frente à “Rodoviária” ou seja a esquina oposta onde os ônibus intermunicipais faziam ponto.

Para mim essa fase se encerra nessas férias de Julho de 66, pois em seguida vieram o vestibular, o CPOR, que servi em 67, e muitos outros interesses que me distanciaram um pouco da fazenda.

A partir dos namoros mais sérios, voltamos a frequentar a fazenda com os amigos, agora casais. Vivemos uma época muito alegre, da qual meu pai gostava muito de fazer parte e se misturar com esses amigos pois muitos ele conhecia desde meninos. Passamos especialmente Carnavais memoráveis cujo ponto alto eram as noitadas de cantoria no jardim de inverno do Paraizo, com a tia Carmen ao piano e tempos depois, ao orgão. O ouvido dela e o prazer em tocar eram incríveis – bastava uma cantarolada pra ela tirar qualquer música....

Para mim a melhor lembrança é de um dueto que fiz com o Robertinho (Roberto Meirelles Filho) cantando “A Noiva” como a Ângela Maria, numa espécie de pré-karaokê. Que saudades do Robertinho...

Dessa época fizeram parte o Robertinho, o Ricardo Ariani, nosso compadre, o Thyrso, o Zé Salles Freire, meu compadre e um de meus amigos mais antigos, o Lucas, o Mottin e o Mattei, amigos do Carlos, meu irmão.

Chegaram os filhos, Rodrigo em 1976, Beatriz em 1978, primeiros netos seguidos de mais nove! E com eles a volta das férias inteiras em São Carlos. Meu pai e minha mãe tinham uma rotina, que durou anos, de ir para lá de quinze em quinze dias na sexta-feira, jantar com tio José e tia Carmen no Casarão no sábado e voltar para São Paulo para nos receber para o almoço no domingo.

Nas férias, a Vovó Toty ia para lá para passar todo o tempo com os netos. Nós e o Vovô Sérgio íamos nos finais de semana e aproveitamos muito, nós e nossos filhos, dessa convivência. Não é a toa que os onze netos têm uma devoção especial pela vó Toty.

Depois que meu pai faleceu assumimos em conjunto a Fazenda e, felizmente, conseguimos dividir as tarefas harmonicamente e levar adiante a missão que nos coube nessa extensa cadeia de gerações.

Até hoje, nós primos, gostamos de nos visitar, de jantar juntos na cidade de São Carlos, de comer a famosa pizza do Durval no Casarão, ou seja, gostamos de nos encontrar. As fundações dessa amizade estão lá na nossa infância.

Volta e meia comentamos que talvez seja impossível manter indivisas as três glebas do Paraizo original por muito mais tempo. Afinal são 30 herdeiros nesta nova geração e a cidade quase chegou até a Fazenda.

Aos 61 anos acho que aprendi que é impossível operar sobre o futuro. Será como puder ser.

Vamos aproveitar, porém, o privilégio de sermos protagonistas de uma história de 150 anos. Fazendas mais velhas há, e muitas, no Brasil. Na mesma família certamente poucas, muito poucas.

Roberto Figueiredo Mello


domingo, 7 de março de 2010