segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Depoimento de Toty - Maria Beatriz Lacerda de Figueiredo Mello

Toty e Luly com a mãe Beatriz

Toty - 1925

Luly, Asdrúbal e Toty




Sérgio Figueiredo Mello, Toty e os filhos Roberto (dir.) e Carlos




Aos treze anos, Vovô Candido estava estudando na Alemanha, não sei em que cidade e recebeu a notícia da morte da mãe. O pai mandou buscar vovô Candido para tomar conta das terras que ficaram para os filhos como legítima da mãe, Clara. Isso foi o início do Paraizo. Eram mais ou menos quatrocentos alqueires. Ele desbravou as terras e plantou café – mais de 400 mil pés! Depois papai comprou mais um pouquinho.

O pai de Vovô Cândido, José Lacerda Guimarães, era o Barão de Arary. Ele se casou primeiro com Clara Franco de Camargo que teve doze filhos, entre eles Cândido. Depois da morte de Clara, o barão se casou com Maria Dalmácia de Lacerda Guimarães que teve cinco filhos. O Barão de Arary teve dezessete filhos!

Cândido Franco de Lacerda nasceu em 16 de agosto de 1857 em Araras e faleceu em São Paulo em 1944. Casou-se com Elisa Whitaker de Oliveira Lacerda. Elisa nasceu em 5 de dezembro ---- e faleceu em 8 de julho de 1946.

Vovô Cândido Franco de Lacerda e vovó Elisa Whitaker de Oliveira Lacerda se casaram no dia 14 de julho de 1885. Ele tinha 29 anos e ela, 21. Eram primos, conheciam-se desde pequenos. Durante o namoro, vovô ia à cavalo até a fazenda do pai de vovó Elisa que era o Visconde de Rio Claro. Vovó Elisa era clara e loirinha, eu só a conheci de cabelo branco...

O retrato com toda a família foi das Bodas de Ouro dos dois. Eu me lembro muito bem da festa, tinha dez anos, quase onze, em 1935.

Tiveram oito filhos:

1o - Cândido – nasceu em 9 de junho de 1886 e faleceu a 9 de outubro de 1886.

2o - Brazilia (Zila) - nasceu em 24 de maio de 1887 e faleceu em julho de 1966 - casada com Amadeo Arruda Botelho.

3o - Candido – nasceu em 20 de dezembro de 1888 e faleceu poucas horas depois.

4o - Evangelina (Vangila) – nasceu em 26 de novembro de 1889 e faleceu em 23 de janeiro de 1987, aos 97 anos - casada com Alfredo de Paranaguá Moniz

5o - Asdrubal Franco de Lacerda – nasceu em 19 de junho de 1891 e faleceu em 22 de novembro de 1950 - casado com Beatriz de Toledo Piza e Lacerda

6o – Maria das Dores – nasceu morta em 31 de janeiro de 1893

7o - Hannibal Oliveira Lacerda – nasceu em 30 de julho de 1896 e faleceu em ------ casado com Marina de Camargo Lacerda

8o - Maria José (Marocas) – nasceu em 7 de fevereiro de 1903 e faleceu----- casada com Theodoro Quartim Barboza

Vovô Cândido e Vovó Elisa viajavam muito. Passavam temporadas na Europa, em estações de águas e em Paris. Vovó deixou muitos diários dessas viagens, quase sempre acompanhada de Tia Marocas porque os outros filhos ou estavam estudando ou já estavam casados. Trocava muitas cartas com os filhos e netos.

Num trecho do diário de 21 de setembro 1912, ela relata de Neuchatel: “Voltamos logo, jantamos e fomos escrever, eu escrevi uma longa carta à Vangila e Zila e Cândido escreveu à Asdrúbal e à Totó Lacerda, Maria escreveu à Caio e a Hannibal...”. Da Europa, em 1912 foram para os Estados Unidos e só voltaram ao Brasil no dia 31 de janeiro de 1913. Tia Marocas ficou interna num colégio na França sob os cuidados de uma governanta, Melle Levasseur... Eram outros tempos!

Meus pais

Papai e mamãe, Asdrúbal Franco de Lacerda e Beatriz Toledo Piza, casaram em 7 de dezembro de 1915. Moraram 5 anos com vovó Elisa na Rua Brigadeiro Tobias 66, como todos os filhos que casavam. Mamãe se deu muito bem com vovó Elisa, aprendeu um monte de macetes – como servir a mesa, quantos pratos, quantos copos. Mamãe sempre dizia que aprendeu muito com vovó Elisa que gostava de tudo muito em ordem. Tinha empregados muito antigos e recebia muito.

Cada domingo vovó Elisa recebia um dos filhos, com marido ou mulher e os netos. Não sei como era no dia de Tia Zila e Tio Amadeo, com tantos filhos!

Todos os dias 5, 15 e 25 do mês, durante todo o ano, ela recebia quem quisesse aparecer para um lanche. Amigas, primas, filhos e netos. Lembro que nós, primos, ficávamos observando tudo e dávamos muita risada quando uma das amigas enfiava empadinhas do lanche na bolsa!

Eu tinha dois anos quando vovô e vovó mudaram para a casa da Avenida Higienópolis.

A mulher de Tio Bilú, Tia Marina era meio estranha, umas das poucas mulheres na época que tinha carro. Uma verdadeira banheira branca e preta!

Papai e mamãe ficaram dez anos sem ter filhos, gostavam muito dos sobrinhos, de Caio, Mariucha, os dois mais velhos de Tia Vangila e depois João e Marion.

Meu pai construiu muitas casas na Rua Bahia e para muitos primos em São Paulo. Foi ele também que construiu a sede da Fazenda Santo Antonio, o Jahu, como era conhecida a fazenda de Tia Zila e Tio Amadeo.

Em 1923 papai estava construindo a casa definitiva para mamãe e ele morarem. Mamãe teve sarampo e logo depois descobriu que estava grávida. Nesse mesmo ano morreu Vovô Pisa e também uma filha de Tia Stella, portanto sobrinha de mamãe. Mamãe e Tia Stella eram muito amigas, vizinhas quase de frente a vida toda.

Nasci no dia 11 de setembro de 1924. A casa, para um casal sem filhos, teve que ser aumentada! Dois anos depois, nasceu Luly. A Revolução de 1924 foi um pouco antes do meu nascimento. Tia Marocas estava esperando o filho Paulo que nasceu no dia 9 de julho de 1924. Muita gente fugiu para as fazendas, mas como nasci em setembro, papai e mamãe acharam melhor ficar em São Paulo. Tio Theo e Tia Marocas foram para nossa casa na Rua Bahia, já tinham a Heloisa, a filha mais velha. A cidade foi bombardeada em muito lugares e papai e tio Theo saíam para comprar comida. Isso eu me lembro de mamãe contar, foi meses antes do meu nascimento.

Na Revolução de 1932 – a Constitucionalista – eu me lembro perfeitamente de papai fardado partindo como Major. Como ele era engenheiro, foi mandado para Espirito Santo do Pinhal com estrategista, fazendo mapas, não sei dizer bem o que mais ele fazia. Temos cartas e telegramas que Luly guardou. Levaram burros e cavalos do Paraizo para as tropas paulistas. O Tuto de Maria Flora que também era engenheiro, chamou papai a vida inteira de Major, era engenheiro também, mas estava abaixo de papai no pelotão. Tio Bilú também foi lutar, não me lembro onde. Todos os paulistas em idade para lutar, lutaram em 32. Nós ficamos na fazenda durante a revolução. Me lembro de papai voltar muito barbudo, tinha uma barba fechada e de farda verde.

Quando pequenas, nós íamos muito menos para o Paraizo. Papai foi obrigado a cuidar da fazenda quando vovô Cândido não quis mais cuidar. Aí papai ficou doente e não podia ficar indo e vindo, então ele passava temporadas maiores no Paraizo. Ficava lá com mamãe e vovó Júlia ia para nossa casa em São Paulo para ficar conosco. Não dava para papai ir e voltar, a viagem era longa, então mamãe ia com ele.

Papai comprou a parte dos irmãos no Paraizo, eu devia ter uns 15 anos. Chamou Luly e eu porque José não se interessava. Mas nós dissemos que queríamos que ele vendesse propriedades para comprar a parte dele no Paraizo. Ele vendeu então umas casinhas que tinha na esquina da Brasil com a Rebouças para comprar aos poucos a parte dos irmãos.

Tio Amadeu tinha um monte de fazendas. Tio Théo tinha um monte de fazendas, Tia Vangila morava no Rio de Janeiro e Tio Alfredo já tinha morrido quando papai comprou a parte dela. Eu já conheci Tio Alfredo muito doente, tinha uma moléstia degenerativa e foi perdendo os movimentos.

Como meu primo João contou, ele e Caio que era o irmão mais velho, passaram alguns anos em diferentes épocas, cuidando do Paraizo.

O Caio trabalhava na Estrada de Ferro Leopoldina como engenheiro formado. Um dia, com o trem em andamento, ele apoiou o cotovelo na janela do trem. Outro trem passou e cortou o cotovelo dele. Foi na própria Leopoldina, numa viagem perto do Rio, Teresópolis, talvez. E o João saiu procurando o Caio em vários hospitais. Conta que estava desesperado, não achava o irmão e, de repente, ele viu num hospital ou coisa que o valha, um sujeito, num cantinho encolhidinho… Queriam amputar o braço do Caio! João tirou o Caio de lá e o levou para casa. Sofreu onze operações no Rio. Ficou perfeito, mas ele sofreu, foi uma tristeza. Quem fez as cirurgias foi o sogro da Marion, um grande médico, Dr. Gouvea. No fim, Caio ficou com um braço um pouquinho mais curto, mas você nem reparava, tinha todos os movimentos. Ele guiava, escrevia… Foi depois do acidente que ele foi trabalhar no Paraizo. Uns anos depois.

Nas férias todos se encontravam na fazenda. Como o Caio e o João eram os primos mais velhos, papai e mamãe deixavam que saíssemos com eles e, realmente, nós fazíamos uma farra: nós fomos explorar a cachoeira grande, com facão para abrir as picadas, cortar os galhos. É o Buracão. Tem vários buracões, mas o do José (que fica nas terras que depois ficaram para José) para mim é o maior.

O Caio plantou algodão no Paraizo que deu muito dinheiro. Uma plantação na rampa no Jabaquara. Eram 70 alqueires, se não me engano. Ele dizia sempre que foi o início da fortuna dele. Deu um algodão maravilhoso, era uma terra muito boa, vermelha. Aí depois de um ano tio Théo abriu o frigorífico e o levou embora e o João ficou. Quando Tio Theo comprou o frigorífico em Cruzeiro, levou Caio como gerente.

O café que vovô Cândido plantou estava velhíssimo. Eram 400 mil pés de café. Lindo, mas depois ficou velho, tinha mais de cem anos. E papai já estava muito doente do coração, teve que fechar o escritório dele de engenharia que ia muito bem.

Sempre muito jeitoso, muito simpático, muito brincalhão, papai era muito querido por todos. As tias, primas e amigas da vovó amavam o jeito dele que tinha muita paciência e bom humor. Era chamado para fazer todas as reformas das casas da família toda e seguia todos os caprichos pedidos! Uma dessas primas quis reformar o telhado da casa pelo lado de fora, sem mexer em nada por dentro. Ele concordou, disse que teria que montar uma armação por fora. Ela disse que pagaria o que fosse para continuar morando na casa durante a reforma.

Outro dia o Carlos (meu filho) me trouxe uma coisa que ele descobriu na prefeitura: um terreno na Rua México com o nome de papai tirando a planta. Não sei dizer se ele chegou a construir a casa.

Papai construiu a casa da família no Guarujá, a Vila Pinhal (na Praia de Pitangueiras). A casa de Tio Amadeu, da Rua Conselheiro Nébias 815 também com entrada pela rua de trás, a Barão de Limeira, foi obra de papai. O terreno tomava o quarteirão inteiro, um casarão enorme, muito gostoso. As meninas desciam a escada pelo corrimão, era altíssima! Tinha uma sala de jantar muito grande, um quintal muito bonito e na metade do terreno tinha uma divisória, com umas oito ou dez jabuticabeiras imensas, todas produzindo. Uma beleza na florada e em novembro todas carregadas de jabuticaba. Nessa casa, Tia Zila e Tio Amadeu criaram os filhos, casaram as filhas – a Vanja, Lisota – com festas no jardim enfeitado.

Eu me lembro, numa dessas festas, que Tia Zila me pediu para fazer a maionese. Imagine a quantidade de ovos para fazer uma maionese para tanta gente! Não era barato ovo naquela época, era uma responsabilidade, acho que foram 25 ou 30 ovos...

Papai, enquanto fazia as casas da fazenda (Santo Antonio) de Jaú para tio Amadeu, morou com ele. Tio Amadeu era muito bonito, mas rabugento. A casa do Jaú era enorme e linda.

A irmã do tio Amadeu, prima Elisa, era casada com um militar alemão, Kingelhofer, era bravíssima. Eles não tiveram filhos, mas tio Amadeu tomou conta das terras e patrimônio dela quando ela foi morar na Europa, em Paris, acho que uns 14 anos. Quando perdeu o marido, voltou. No testamento, eles deixaram o Palmital, que era a fazenda que tinha cabido a ela e que tio Amadeu tinha tomado conta, para o irmão. Ela tinha vivido na Europa largamente com os rendimentos que recebia das terras. Então, deixou a fazenda para tio Amadeu porque ele tomou conta a vida inteira.

Tia Zila era um amor, um encanto de criatura, muito doce. A descrição que ela deixou do casarão e da lida no Paraizo são preciosas!

Em Junho nós passávamos um mês, as férias naquela época começavam antes por causa das festas juninas…

Chegávamos lá pelo dia 13, 15 de Junho para as festas de Santo Antonio, São João, São Pedro e ficávamos um mês inteiro. Eu me lembro de chegar no Paraizo e ver todo aquele capim roxo com florzinhas do capim, tudo roxo. Era um capim melado, andávamos pelo pasto e a bota ficava engraxada, brilhando. Uma espécie de manteiga natural que se passava nas botas. E passávamos os dias de bota. Para montar à cavalo, para caminhar.

Quando papai passava tempos lá, tinha companhia do João e eles conversavam muito. Papai sempre foi muito querido pelos sobrinhos. Nós participávamos também das conversas que se alongavam no terraço ou na sala de jantar quando fazia frio.

Teve um dia em que João e pegou um livro velho e muito grosso de receitas, daqueles que todo mundo tinha, acho que era o Rosa Maria e começou a ler em voz alta em tom teatral. As receitas eram de você chorar de dar risada: era mutum ou outras aves estranhas, você tinha que arrancar as penas… Eu chorava de rir.

O casarão era ainda o mesmo descrito por Tia Zila nos “Dias Ensolarados no Paraizo”. A sala de jantar era o lugar que todos ficavam depois do jantar que era muito cedo. Castiçais e lampiões eram a luz para os bordados ou leitura. Papai parecia se desligar do mundo, sentado na ponta da mesa, concentrado, com os cotovelos na mesa e as mãos no queixo, sempre lendo ou estudando. Podia cair o mundo que ele não se abalava... Aos nove anos, papai veio para São Paulo, interno no Colégio São Bento. Depois entrou na Engenharia da Poli e, em 1915, se formou. Ele deve ter sido da décima turma da Poli. A turma era muito pequena.

Logo que montou o escritório de engenharia, começou a ter as dores no peito – angina – coisa que hoje pode ser diagnosticado e tratado... Papai estava reformando a casa de vovó Elisa na esquina da Higienópolis com Angélica quando teve os primeiros infartos. Acho que foi em 1928, mamãe estava esperando o José. Papai se jogava no sofá porque tinha andado da Avenida Higienópolis até em casa, na Rua Bahia. Não era longe, uns cinco ou seis quarteirões. Ele se cansava muito, ficava sempre ofegante.

Tinha sempre uns bancos para sentar na fazenda porque papai e vovô tinham essa mania: andavam, sentavam um pouco... Acho que papai ficava cansado por conta do coração já nessa época.

A entrada central tinha um bancão de madeira e aí você entrava naquele hall com as pinturas representando as quatro estações como está até hoje! Um empreiteiro italiano que vovó descobriu foi quem construiu a casa.

Depois do hall à direita ficava a sala de vovó, à esquerda o saguão da escada, também como tem até hoje. O José só fez uma coisa na primeira reforma que ficou sensacional que foi fazer aquele banheirinho embaixo da escada que não atrapalhou em nada. O escritório, a escrivaninha de vovô, a mesma que está lá e aquele armário. Ainda não existia a escadinha que José fez que dava no porão, ele guardava as coisas lá embaixo.

À direita do hall de entrada, era a sala de visitas de vovó Elisa com papel de parede vermelho, aveludado, com uma janela que dava para o terraço e uma porta para o jardim. Havia duas portas: uma dava para um quarto de hóspede avulso, uma visita de algum comprador ou (do lado da sala, tinha saída só para essa sala). Quando Sérgio e eu éramos noivos, ele ficava nesse quarto que virou a sala grande que José reformou.

Além desse quartinho, tinha a salinha de piano de vovó, a outra metade era um quarto de dormir. Tinha um piano preto, papai tocava flauta, tia Vangila cantava, tinha uma voz linda; mamãe tocava piano e tinha um irmão de vovó Elisa, Henrique Whitaker de Oliveira que queriam levar para cantar na ópera de Berlim! O piano é o mesmo da vida inteira. Havia ainda a sala de jantar antiga.

Não tinha banheiro embaixo. Havia um único banheiro na casa inteira. A planta era de uma casa americana que vovô Candido tirou de uma revista. Era sobrado, o que não era absolutamente comum em fazenda. Foi em 1897 que ele construiu a casa. Subia-se a escada, aquela escada bonita, e dava num quarto de vestir, depois você entrava naquele quarto enorme, que era o quarto de dormir de vovô e vovó, que era onde mamãe dormia…

Tinha o quarto de vestir, depois o de dormir, que era onde mamãe dormia e tinha a cama de casal. Uma porta de um lado, uma porta do outro lado e a cama no meio. A porta da esquerda dava no quarto dos meninos e a da direita no das meninas. O quarto dos meninos era ligado com o das meninas. Para as meninas saírem, ou elas passavam pelo quarto dos irmãos ou pelo da mãe. Elas ficavam ali presas... No livrinho de Tia Zila, ela conta a história do dia em que Tio Amadeo pediu Tia Zila em casamento e Tia Vangila correu para o quarto dos meninos, que era o mais próximo e escreveu na parede a data. O João mandou fazer uma moldurinha de madeira, como um quadro. Em uma das festas do Paraizo, o Fernão, meu primo, pediu para ver o tal quadrinho. E não é que não existia mais!! Talvez alguém que não soubesse da história, tenha mandado pintar a parede. Era uma lembrança, uma pena...

Havia no corredor um banheiro que era uma coisa horrorosa: você tinha que tomar banho de banheira. Vovó Elisa ficou felicíssima no dia que mandou tirar a banheira antiga de mármore. Anos mais tarde, o João achou jogada no pasto a banheira de vovó Elisa. Imagino que ela não aguentava mais... No inverno, subiam baldes e mais baldes de água fervendo e quando eram despejados na banheira de mármore, a água esfriava! Coitada, nunca tomou banho quente!

Na parte de cima, ligada pela escada de serviço que era uma novidade, nenhuma casa tinha duas escadas, mas a planta americana que vovô se encantou tinha essa escada na planta. No fundo do corredor de cima ficavam dois quartos de empregada que mais tarde viravam nossos – meu e de Luly – eram grandes, com janelas. Tinha uma porta que era fechada quando ainda eram das empregadas.

Tempos mais tarde, papai um dia teve a feliz idéia de fazer mais um banheiro. Nós vínhamos com amigas, uma turma – Cecília Sohn, Nini, Lolita e as primas.

Onde era a copa, bem embaixo do banheiro de cima, ele fez um banheiro para nós com chuveiro, a coisa mais deliciosa do mundo! Não sei dizer se hoje é um dos lavabos...

A cozinha tinha um fogão no canto, daqueles de metal, mas de lenha, com forno também de lenha, uma grande mesa para os empregados comerem e meio de escanteio, num cantinho mesmo, uma piazinha para lavar legume.

Quando eu já era mocinha, papai comprou um fogão elétrico para facilitar a vida da cozinheira e a nossa. A casa ficava muito cheia nas férias. Ele comprou uma geladeira também. Eu tinha uns 15 anos, isso deve ter sido em torno de 1940, que é quando nós começamos a ir muito pra lá. Mesmo assim, lembro de quando o Roberto e o Carlos eram nenês, muitas vezes tive que descer até a cozinha e acender o fogão de lenha para esquentar mamadeiras em banho-maria. Era terrível...

No pomar, quando eu era menina, tinha algumas jabuticabeiras plantadas por vovô Cândido, as mais antigas. Depois papai e José plantaram mais e também laranjeiras e mangueiras e completaram o pomar. O João fez aquele rond point de tijolos debaixo das árvores na frente da casa como se vê até hoje. Ali perto, ao lado das jabuticabeiras velhas, buscávamos água – uma torneira ou biquinha com água que vinha da mata que era a água que se podia beber.

O terraço de cima do casarão era o terraço do quarto da mestra – a professora que vovô contratou e que Tia Zila descreve tão bem. Era a vista mais bonita do Paraizo! Depois foi reformado e virou o telhado do terraço da entrada que foi aumentado por José. Nesse terraço tinha um banco grande de madeira onde sentávamos para ver o por do sol. Não cheguei a pegar o carramanchão que o João descreve e que aparece nas fotografias. Um quarto da frente virou quarto de mamãe com mais um banheiro que dava para o corredor.

A reforma que José fez na sala de jantar, a primeira, ficou maravilhosa. As janelas de vidro até o piso com vista para o lago. Carmem e eu forramos com tecido o armário de louças, ficou lindo! Era muito bonito comer com aquela vista, aquele horizonte. Tinha um terraço que saía da sala de jantar, aparece em muitas fotografias, não existe mais. A sala de jantar com a porta para a sala de visitas com a lareira e a estante imensa que José fez na fazenda com o marceneiro Moacir. O retrato do bisavô José Lacerda de Guimarães na parede acima da lareira – o Barão de Arary. Um conjunto muito bonito das duas salas! O retrato da bisavó Clara, José morria de medo quando era pequeno... Do segundo casamento de vovô com a cunhada, lembro de Tia Lili que falava meio tatibitate e andava com passinhos curtos – a história de continuar a conversa depois de se despedir de todo mundo como “tia Lili” é por causa dela.

Carmem fez uma boa reforma na parte de serviço, na cozinha, ficou mais clara, arejada. Uma horta grande, sempre bem cuidada, perto da casa do administrador. Carmem era muito caprichosa, morava lá e cuidava do jardim com um jardineiro, tudo funcionava. José e Carmem davam muitas festas, recebiam amigos e, em janeiro, no aniversário dela, dia 21, lembro que ela fazia um camarão com pirão que as amigas adoravam.

A fazenda nunca teve problema de falta d’água. Tinha o famoso “carneiro” que levava água para dentro, mas desperdiçava um colosso para fora!

Quando os meus filhos e de Luly eram crianças, nós revezávamos – quinze dias cada família – porque não cabia todo mundo! Era uma molecada enorme, uma farra. Depois Luly passou a usar a casa ali ao lado e dava para reunir a turma toda.

2009

domingo, 8 de novembro de 2009

Depoimento de Luly - Maria Lucia Lacerda Coelho de Paula







Fernando Coelho de Paula
Marcelo Coelho de Paula
Luly montada no Chiquinho

“Paraizo, o que foi o meu Paraizo? Férias, que emoção. Passar tempo no casarão, que alegria. Ver árvores, plantações, um luar, uma cachoeira chamada Buracão, onde tinha carrapatos e uma imensa emoção como se estivéssemos fazendo um safári na África.

Mamãe me trouxe para cá a primeira vez com seis meses. Eu sempre brinco que eu não sou nem sãocarlense nem paulista.

As jabuticabeiras que se enchiam de frutas. Eu era chamada para encher as cestas que eram mandadas pelo trem para os amigos paulistanos: jabuticaba era um fruto que nos deliciava. Era uma razão para convidar amigos, era a fruta das fazendas paulistas.

Papai, de polainas e chapéu, ia ver o serviço da fazenda a cavalo e eu ia com ele do casarão até o Alto do Jabaquara onde ainda tinha café. Foi cortado quando o vovô Cândido cedeu aquela área para nosso primo muito querido por nós, especialmente por meu pai, Caio Paranaguá Moniz, filho de tia Evangelina e tio Alfredo.

Papai e mamãe não tiveram filhos durante os dez primeiros anos de casamento, então o Caio, filho de Tia Vangila era queridíssimo deles, assim como todos esses sobrinhos. O Caio e o Jica eram mesmo muito queridos deles. Caio foi trabalhar no Paraizo para plantar algodão.

Nessa época começou a erradicação dos cafés, foi para nós uma novidade ver o algodão crescer no Alto do Jabaquara. [1939 mais ou menos].

Abrindo um parênteses. A família de Tia Vangila teve uma vida com muitas restrições porque o tio Alfredo ficou paralítico muito jovem. O Caio contava que manteiga eles só comiam no domingo. O começo da vida da tia Vangila com o tio Alfredo foi bastante difícil também porque ele ficava muito enciumado: desmanchava toda a bainha dos vestidos dela para ela não poder sair no Rio de Janeiro. Morria de ciúmes, ela era uma mulher linda!

Tão rica terra, chegou a produzir noventa capulhos [botão do algodão] por pé. E ainda era tão manual quanto o resto do serviço.

Tempos depois, Tio Théo convidou o Caio para trabalhar em Cruzeiro, onde meu pai trabalhava como sócio também. Tio Théo comprou com meu pai o Frigorífico Cruzeiro. Aí o Caio e Lucy, mulher dele, foram morar lá. E papai sempre dizia a Caio que o começo do dinheiro dele foi o algodão plantado no Paraizo, que rendeu a ele uns bons cobres, não sei exatamente quanto.

Primeiro ele foi como ajudante do tio Théo, eventualmente comprou a parte do papai.

De volta à lida no Paraizo. Quando colhido o café ele era trazido para os terreiros em carroças. E na infância, ainda bem pequenas, nosso prazer era ver soltar os burros que puxavam as carroças que, quando livres da cangalha, se espreguiçavam na terra e levantavam um poeirão.

Saíamos em grupos a cavalo, no começo acompanhados por um serviçal [Gumercindo], depois só nós – irmãos, primos e amigos.

Eu adorava cavalos. Comecei com o Periquito, depois tive o Rex e, aos dezoito anos pedi como presente um mangalarga: ganhei o Tangará.

Mamãe, que nada tinha a ver com culinária em São Paulo, na fazenda virava doceira, boleira, fazia pães e sequilhos pelas velhas receitas de família. Era muito usado se trocar receitas: bolos de dona Alaíde; pão de vovó Eliza; creme de vovó Júlia e por aí afora. Os nomes ficaram...

Meninotas românticas, no inverno, a graça era deitar nos montes de café e ver, naquelas mágicas noites de estrela, as estrelas caírem. Podia-se fazer um pedido, mas não se podia contar que tinha visto a estrela cair.

A volta para São Paulo não me agradava muito. Sempre fui muito ligada ao verde, ao espaço. Me lembro das frias madrugadas em que o Miranda, motorista de São Carlos e, às vezes, mais um táxi – vinham nos buscas. A estrela Vésper ainda estava no céu; nunca me esqueço destas viagens de trem; que maravilha! Em geral vínhamos e voltávamos de trem da Ferrovia Paulista porque a viagem era muito penosa – eram nove horas!

Se eu continuar a pensar, escrevo um livro. Por isso, vou parar e agradecer a Deus que exista gente como a Batoca e o Durval que com muita coragem e amor são os continuadores de seu pai, meu irmão José e mais 5 gerações.

Quando vovó Eliza morreu, deixou para cada um dos afilhados, 100 contos de réis [dinheiro de 1942], se não me engano. Ela era minha madrinha. Foram gastos: parte comprando um pedaço da Santa Cruz porque eu amava a terra. Papai até me perguntou se eu tinha certeza. Fiz uma viagem com Tio Théo para os Estados Unidos, ainda com esse dinheiro e guardei alguma coisa. Fiz uma viagem com a tia Lucy para Buenos Aires. Acho que eu gastei praticamente todo o meu dinheiro nisso.

A Fazenda Santa Cruz não era nossa. Era um pedacinho que ficava “encravado” na Paraizo. O dono queria vender e papai achou interessante comprar para acrescentar aquela área ao Paraizo. Só que papai não tinha aquele dinheiro todo. E os irmãos, a essa altura, queriam todos vender a fazenda, isso sim.

Eu comprei um terço da Santa Cruz, que com o correr dos anos ficou como uma parte da Paraizo. Aí o José me propôs trocar o terreno de mamãe em São Paulo, que é vizinho de casa até hoje.

Falando sobre os tempos de criança, eu me lembro que Mamãe se dava muito bem com a vovó Elisa e com a tia Brasília. Ela morou um tempo com a tia Brasília.

Papai construiu a casa da sede no Jaú e mamãe morou um tempo lá. A fazenda se chama Santo Antônio, eu acho. A fazendo ficou com algum dos filhos do Jica. – era era o filho mais velho da tia Zila. Antônio Carlos.

José Roberto Coelho de Paula assistiu ao depoimento de Luly. São casados há quase sessenta anos. Contou o que viveram lá:

Minha primeira visita ao Paraizo tem mais de 60 anos, quando éramos noivos. Depois de casados, Sérgio e Toty também iam para a fazenda com o Roberto, o filho mais velho. No mesmo ano nasceram o Fernando, de Luly e o Carlos de Toty. Em 1951. Tivemos mais quatro meninos – Marcelo, Asdrúbal, Eduardo e Luiz Roberto. Sérgio e Toty tiveram o terceiro, Luiz. Oito netos homens! Claro que toda a turma queria passar as férias no Paraizo. O casarão tinha só um banheiro embaixo para todos!

Quando José e Carmem se casaram e foram morar na fazenda, logo nasceram Elisa e Beatriz. E a casa não comportava tanta gente nas férias. Passamos a revezar – Toty e os filhos passavam uma temporada, eu e meus filhos, outra.

Pedi a José que se vagasse uma casa na colônia, nós faríamos uma pequena reforma para termos um canto nosso. Livraram duas geminadas.

Fizemos uma reforma bem precária com o único dinheiro que Toty e eu recebemos da Paraizo ao longo dos anos. Nós aplicamos na reforma da casa que não tinha banheiro, não tinha nada. A cozinha era do lado de fora. Nós não tínhamos para investir: era começo de vida, criançada pequena, uma luta.

Nós ficamos nessa casa para que Carmem e Toty pudessem ficar à vontade no casarão. Assim ficavam cinco crianças e não dez! Tinha uma cachoeirinha na frente da nossa casa, que a gente ia buscar água. Pegava a estrada, entrava no pasto e do pasto, o riozinho que saía do lago e lá tinha essa mina d’ água. Era uma cachoeirinha muito lindinha.

E foi assim, tarde calma, José, meu irmão, e eu resolvemos dar uma volta no pomar do velho e querido casarão do Paraizo, em direção a picada do mato, que confinava com o pomar. Caminho aberto no meio da mata. Era como se estivéssemos adentrando um pedaço de selva.

De repente José disse: Vamos vender essa fazenda, só dá trabalho, estou cansado.

E eu, para quem aquele pedaço de terra era muito especial disse: mas José isso é nosso, porque cada um de nós não assume a sua parte sem onerar a mamãe nas rendas devidas. Faríamos esse compromisso. Éramos todos moços o bastante para criar uma fazenda.

Foi assim que surgiu a idéia da partilha, tirando do José uma responsabilidade cansativa. Assim que nos reunimos e discutimos como seria essa divisão, Toty e Sérgio bem como nós dois achávamos que a sede que tinha sido mantida por José e Carmem Sylvia até aquele momento com carinho deveria ficar no pedaço deles. Esse casarão foi construído por Candido e Eliza, meus avôs em 1897.

Asdrúbal e Beatriz, meus pais, sempre tiveram com essa sede o mesmo carinho que meu irmão. Para nós, era uma alegria as férias na fazenda, não queríamos outro lugar, às vezes íamos a sós às vezes levávamos amigos. Quase sempre íamos pelo trem da Paulista que era uma maravilha e algumas outras de carro, o que representava muito boa disposição de meu pai, pois o carro às vezes quebrava e ele é quem tinha que consertar tudo, pois não havia o menor socorro nas estradas. Era tudo muito primário.

Da parte de mamãe sempre havia um farnel, pois as viagens chegavam a durar até 9h. Era uma farra sentar embaixo de uma árvore e fazer um piquenique, apesar dos percalços nunca houve mau humor nessas viagens.

Sempre gostei do Jabaquara, a área que nos coube na partilha.

A gleba do Paraizo era um grande retângulo, onde num dos extremos ficava a sede e o lado oposto a isso era o Jabaquara. Era muito comum eu ir com meu pai á cavalo pelo carreador central da sede até o alto do Jabaquara. Vestia-me sempre de calças de montaria e botas até o joelho, pois muitas vezes tínhamos que andar em campineiras onde havia o perigo das cobras. Mouro e Periquito eram os cavalos mais velhos e que nós usávamos, depois foram comprados Pipoca, Rex e outros que usávamos quase todos os dias. O Tangará ganhei de meus pais como presente dos 18 anos, foi comprado de uma fazenda de um amigo de meu pai que ficava em Laranjal.

Prontinha com o chapéu na cabeça e o rebenque na mão lá ia eu com o Zão, era como chamávamos nosso paizão, era passeio e trabalho, pois era durante essa caminhada que meu pai ia vendo o serviço e dando as ordens quando necessário. Saíamos cedo e voltávamos na hora do almoço, às vezes sob um sol escaldante e às vezes um gelo.

Quando papai assumiu a fazenda, grande parte era de cafezais que já velhos, mas ainda produtivos. Na baixada da várzea que era chamada de Japão, pois lá havíamos tido arrendatários imigrantes japoneses que não falavam português e tinham hábitos muito singelos. Construíram suas próprias casas de sapé e bambu em chão de terra batida e cultivavam uma boa área de arroz. Era uma gente muito arredia, nunca entramos em nenhuma das casas.

Passando a várzea começava o café, todo o lado direito até o alto do Jabaquara e do lado esquerdo havia a mata virgem que nunca foi cortada, 40 alqueires. A nossa divisão Jabaquara Paraizo era o ribeirão dos Negros. Que cortava a várzea em direção a represa do 29. Atravessando a Fazenda Morro Alto nossa vizinha e também algumas terras do Canchim. Uma vez feita a partilha cada um de nós começou a construir a sua fazenda.

Toty e Sérgio construíram na Santa Cruz uma casa pequena, já planejada para crescer. A fazenda dela confinava com o Paraizo e conosco num trecho onde havia uma estrada de ferro de bitola estreita da companhia Paulista. Com o Paraizo a divisa era feita com o córrego do Paraizo que despencava num salto até as terras baixas para se encontrar com o Ribeirão dos Negros. Foi um tempo muito bom em que nós, Zé Roberto e eu planejávamos e construíamos nossa fazenda. Não havia nada no Jabaquara, nem tulhas, nem terreiros, nem casa de empregados, nem luz, nem água encanada e nem telefone, começamos do zero.

Havia alguma plantação de café que nós mantivemos, plantamos uma nova área com café, tínhamos uma área de milho e outra de pasto. Foi conosco como administrador Jaime Mion filho do muito antigo administrador do Paraizo, era bem mocinho, eficiente e trabalhador. Só que como perfeição na existe, ele se arvorou em sócio do material que mandávamos para construir nossa fazenda, mas isso só foi percebido tempos depois. Construímos uma boa casa que imaginávamos um dia transformar em moradia do administrador, escritório e depósito. Construímos também a colônia, cinco casinhas feitas com capricho e com o mesmo material que usamos na nossa casa. Uma bela área no entorna das casas, tudo na mais perfeita ordem. Refizemos a tulha que estava caindo e fizemos o nosso próprio terreiro. Tudo era prazer.

O entusiasmo de Zé Roberto e meu era enorme em ver a casa crescer. Tínhamos dois pedreiros, Pedro Gandolphini e Angelim Ferrarini, ótimos, e um servente uma pessoa muito educada e inteligente e diferenciada Geraldo de Melo cujo filho foi mais tarde trabalhar na Santa Cruz e ficou como administrador até hoje na fazenda de Toty e Sérgio - o Antônio.

Chegava sexta-feira à noite. Era por a criançada no carro, mais gatos e papagaios e ir para o Jabaquara, que maravilha! Luz, água, telefone, estradas e cercas, tudo foi feito por nós,antes não havia nada, fizemos ainda um curral e uma estrebaria.

No Jabaquara tinha um salto e a água provinha de uma matinha cheia de palmitos, era um lugar encantador. Fazíamos divisa com uma estrada municipal entre nós e o Otavio Pinho. Do outro lado com a Fazenda Morro Alto e do outro lado com a Fazenda Sapé.

Uma área plana que havia no Jabaquara foi emprestada por meu avô Candido á seu neto, Caio Paranaguá Moniz que lá plantou algodão com enorme sucesso.

Caio também plantou eucaliptos em volta de toda essa área o que a deixou muito bonita. Esse primo era muito amigo e foi convidado por tio Teodoro para gerenciar um frigorífico que eles compraram em Cruzeiro.

Essa divisão feita por nós só nos deu alegria, nossos filhos cresceram nessa terra e sendo um grupo muito amigo, as férias eram uma farra. Nem se pensava em rádio ou televisão, tínhamos mais tempo para ler e pensar. Gozar das coisas mais pelas e simples da natureza sempre foi o nosso prazer.

O Jabaquara passou para as mãos do Asdrúbal quando ele voltou formado de Piracicaba como Engenheiro Agrônomo e aí surgiu a possibilidade da compra de uma fazenda vizinha chamada Floresta e assim continuou a nossa vida de reformadores de Fazendas. A Floresta tinha uma sede de 1880 que estava semi-abandonada e mais 80 alqueires de terra, duas cachoeiras.Era uma gleba linda e foi um prazer reforma-la durante 30 anos.


quarta-feira, 4 de novembro de 2009

mais fotografias

Luly e Toty - anos 40 - terraço sala de jantar do Paraizo
Luly, José, Beatriz e Toty no Jahu
Cândido e Elisa no Jahu
Asdrubal e Toty - anos 40
Bilú, Vangila e Asdrubal - 1912

Neia e Vovô Cândido

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Antonio Aparecido Gallo - o Toninho






jardins e casa da Faz. Santa Cruz

Antonio Aparecido Gallo, o Toninho, nasceu no dia 8 de dezembro de 1951. Tem uma irmã gêmea, Maria e muitos irmãos mais novos.
Toninho e Maria moram há mais de quarenta anos na Fazenda Santa Cruz, parte da Fazenda Paraizo dividida por Beatriz Piza e Lacerda, viúva de Asdrubal Franco de Lacerda. Coube à Toty Lacerda de Figueiredo Mello e Sérgio Figueiredo Mello o trecho da Santa Cruz. Lá começaram a construir nova sede em 1965 que foi sendo ampliada por Toty com o casamento dos três filhos e a chegada dos netos. Um refúgio acolhedor que os onze netos e agregados aproveitaram e aproveitam muito.
Toninho é cozinheiro de mão cheia - faz um rosbife inigualável, uma farofa com pedacinhos de doce de carambola que é uma perdição e o famoso feijão, marca registrada que ficou na memória de todos que passaram pela fazenda! Jardineiro do "dedo verde", contador de causos, fã de Roberto Carlos e Beatles. Tem uma coleção de discos de vinil e gosta muito de conversar sobre música. Mandou por escrito o depoimento abaixo e prometeu escrever mais sobre o tempo em que morou na Fazenda Paraizo, bem pertinho da casa em que mora com a mulher Leni e os filhos Adriano e Adilson.
Toninho tem uma curiosidade nata, gosta de ler e quando diz que aprende coisas até hoje, é muito sincero. Uma pessoa de rara sensibilidade e senso de estética. Sabe consertar tudo o que precisa ser consertado, valoriza a história de cada objeto, cada tigela, travessa, panela da "sua" enorme cozinha. Tem ferramentas para todo tipo de conserto e guarda peças, porcas e parafusos de aparelhos velhos que podem ser úteis para um futuro reparo. Nas férias de julho e janeiro, os netos andavam feito sombras atrás do Toninho. Uma fila para buscar água na bica, voltavam imundos de terra do brejo. Satisfazia todos os desejos: batata frita, mandioca frita, paçoca de carne no pilão, o famoso rosbife, espetinhos de frango e de carne com pedaços de cebola, tomate e o mais que famoso medalhão de filé com uma tira de bacon em volta em "cartoccio" com papel de alumínio. Tem ainda o gnocchi que ele corta no tampo de granito e polvilha com farinha de trigo em duas enormes peneiras de taquara. Antes de ir para a panela, quase metade dos pedacinhos cortados já foram abocanhados por mães e filhos! A cozinha da Santa Cruz é o sonho de quem gosta de ter tudo à mão, ou melhor, no estômago...

Era 1957 quando meus pais vieram morar na Fazenda Paraizo. Éramos só eu, a Maria (irmã gêmea) e o Jair com 3 anos de idade.

Meu pai veio especialmente para trabalhar na lavoura de café que era muito bonita e também na máquina de beneficiar. Lembro-me que os colonos colocavam o café no vagonete que descia até a máquina de beneficiar que ficava mais embaixo. Era muito bonito ver aqueles vagonetes correndo em cima dos trilhos da mureta até a máquina. Que saudade disso tudo!

Na colônia dos pretos, do tempo mais antigo, tinha sobrado uma única casa que estava muito velha. Lá moravam o Calixto, sua mãe Mariana e mais três netos – Paulo, Luiz e Joana. Ficamos amigos, éramos todos mais ou menos da mesma idade.

A Mariana era parteira. Meus cinco irmãos que nasceram já no Paraizo, nasceram todos com a ajuda dela. A Mariana tinha um jeito engraçado de falar. Acho que ela era descendente de escravos. Fumava cachimbo de barro com um canudo de madeira. Quando o canudinho do pito entupia ou quebrava, ela me chamava e falava assim: Nho Quinho, vai pegar outro canudo de pito pra mim, vai... Eu pegava e ajudava Mariana a encher o cachimbo de fumo e até acendia com um tição de madeira do fogão de lenha da casa dela mesmo. Era muito engraçado. Que saudade desse tempo, era tão bom...

As casas da colônia no Paraizo eram boas, já feitas com reboque de areia, cimento e cal, mas não tinha forro nem banheiro dentro. Tinha uma fossa do lado de fora da casa.

Em 1959 entrei para a escola do Paraizo no primeiro ano. Não fui muito bem e fui reprovado e em 1960 fiz de novo o primeiro ano e passei com nota muito boa para o segundo ano com a mesma professora, Dona Liliana Cerqueira Leite. Eu me lembro perfeitamente.

No terceiro ano já fui muito bem. A professora era Dona Edna de Lourdes Campos Bellini que se casou com o Lineu Bellini, dono do açougue onde Dona Toty comprou carne por muitos anos.

Passei para o quarto ano que só funcionava na cidade, mas não pude continuar porque era muito difícil ir para a cidade. Não tinha como ir e também minha família aumentava sem parar! Eu já tinha 11 anos. Fiz a 1a Comunhão na capela da fazenda que era a escola e logo comecei a trabalhar ajudando na colheita de café.

Ao lado do terreiro tinha um cafezal novo, foi a primeira colheita. Sr. José nos chamou, o café era medido por litro. Quanto mais a gente colhesse mais ganhava. Eu gostava muito desse serviço e ajudava na minha casa com o que ganhava.

Como contei, a escola da fazenda era a capela ao lado do casarão. Éramos umas trinta crianças ao todo na classe. A professora vinha de charrete com capota de lona. O cocheiro era o Luiz Vigatti que a gente chamava de Lilão. Ele buscava a professora na Vila Néri e levava de volta após as aulas. Na hora do recreio, nós brincávamos de esconde-esconde em volta da escola e também de passa-anel que era uma brincadeira muito legal. Sr. José dava lanche para todos na escola – leite batido com banana bem gelado, uma delícia!

Por volta de 1960, Sr. José Lacerda começou a reformar todas as casas da colônia e pôs forro de madeira, fez banheiro dentro, com sanitário e chuveiro elétrico. Aí sim ficou uma beleza!

No Jabaquara tinha a olaria. Funcionava na beirada do rio para fazer tijolos. O barro era recolhido ali mesmo no brejo e levado para o amassador que era manual. Duas pessoas giravam até dar o ponto. Depois o barro era colocado na forma e ia para o forno bem quente para queimar. Isso era muito bonito, mas logo a olaria parou de funcionar, não sei por que.

A serraria era muito legal, mas as crianças não podiam ir lá, o Zé Mion, o administrador, não deixava porque era perigoso. O filho dele era marceneiro e fazia os móveis da fazenda. Muita coisa bonita.

Os cafezais da fazenda eram muito bonitos. No tempo de colheita, todo pessoal da colônia trabalhava – homens, mulheres – todos protegidos por roupas longas e chapéu de palha.

Em todas as casas da colônia tinha forno e fogão de lenha. Era muito gostoso no tempo frio quando a gente subia em cima da mesa do fogão para se esquentar.

No casarão, o Alécio era o jardineiro. Ele também marcava a hora de começar e terminar o serviço na fazenda. Batia o sino de manhã à 6 horas, depois às 9 que era hora do almoço. À 1 hora da tarde tocava para o café e à 5 horas pra terminar o dia.

O Edmundo levava o leite na carrocinha de quatro rodas todos os dias de manhã.

Ficamos no Paraizo de 1957 até 1964. No final desse ano, ouvimos falar que a fazenda ia ser dividida em três partes. O Zé Mion que era o administrador, começou a separar também os empregados para cada uma das três novas fazendas. Foi assim que viemos morar na colônia que passou a pertencer à Fazenda Santa Cruz de dona Toty.

Em 1965 construíram a casa sede da Santa Cruz e quando ficou pronta, por volta do mês de junho, a Maria e eu começamos a trabalhar na limpeza e arrumação. Dona Toty sempre organizando tudo para as férias de julho que estavam próximas. Ela nos ensinava também a fazer arroz, feijão, batata frita. Era divertido fazer isso. Eu também comecei o serviço do jardim, sempre aprendendo tudo com a patroa, fui gostando cada vez mais. Acho que até hoje aprendo coisas! Foi o primeiro trabalho com carteira assinada da minha vida - por Dona Toty e Dr. Sérgio que me ensinou tudo que eu sei fazer sobre eletricidade. Aprendi muito e sou eternamente grato ao casal.

Ainda me lembro de alguns nomes de tantas famílias que moraram na Santa Cruz. A do José Tiaci, do Antonio Zambom, do Formentão, do Zaboto, do João Romano (continuar)

De todas as famílias que aqui moraram, a do Napolitano foi a que ficou mais tempo. Eu adorava conversar com ele por causa do sotaque italiano. Muitas vezes eu não entendia nada, acho que era um dialeto. Aqui na Santa Cruz, já aposentado, ele passou a cuidar de uma horta que ele mesmo plantou. Tinha alface, cenoura, couve, salsinha, abobrinha, mandioquinha para a sopa das crianças, netos da Dona Toty em época de férias.

O Napolitano era muito divertido. Fumava cigarro de palha muito forte, a gente ficava até tonto de sentir aquele cheiro! O engraçado é que ele colocava o cigarro atrás da orelha para mexer na terra da horta e depois esquecia e ficava um tempão procurando feito louco...

Aos domingos à tarde, eu ia ao cinema. O Cine São Carlos ficava na Praça Coronel Sales. Eu adorava os filmes do Tarzan, era muito legal! Não deviam ter demolido o prédio do cinema, era uma coisa maravilhosa da nossa cidade. Ao lado tinha o Bar do Maneco onde íamos tomar sorvete de groselha. Que delícia que era!

Entre 1960 e 1964, japoneses arrendaram as terras da baixada, na beira da estrada de ferro do trenzinho Maria Fumaça, como nós chamávamos. Era tão bonita aquela máquina puxando um monte de vagões transportando o café das grandes lavouras de toda a região. Não sei direito para onde ia aquele café.

Fomos trabalhar para os japoneses na colheita de tomate, pepino, nabo, cenoura. Na hora do nosso almoço às vezes dava certo de o trenzinho passar e a gente jogava os tomates estragados nos vagões... Era divertido, uma arte de moleque! Tenho saudade de tudo isso e também das broncas que a gente levava dos japoneses, Sr. João Ottani e Paulo Cavaniti. Não me lembro se era um dos irmãos que não conseguia falar os nomes da gente, então demos o apelido de “Não Sei” e ele ficou conhecido por esse apelido.

Os amigos dessa época eram o Luiz Vigatti (Lilão), o Benedito (Ditinho), o Ademir Aguiar ( Demizão), o Hélio Luiz ( Luizão), o Paulo (Paulão), o Adão, a irmã Maria Cecilia, a Eva, o Felix, filho do japonês. Íamos todos juntos para a cidade nos fins de semana e feriados - a pé ou de bicicleta - era muito legal. Sempre tinha quermesse na igreja do Educandário e parquinho no balão do bonde da Vila Neri. Era muito divertido. Lembro que a gente pedia músicas e ouvia nos alto falantes dos postinhos do parque. Tinha que pagar para tocar a música preferida, mas era muito legal. Pena que hoje não existe mais essas coisas boas, infelizmente. Aproveitei muito a época da Jovem Guarda.

Conversávamos sobre músicas e cantores como Celi Campelo, Roni Cordi, Vanderléia, Roberto Carlos, Edi Carlos, Paulo Diniz, Vanderlei Cardoso, Martinha, Erasmo, o tremendão e os Beatles. Cantávamos as músicas de todos esses caras. Um queria cantar melhor que o outro, era uma alegria total. Nesse mesmo tempo, por volta de 62, 63 também era sucesso a música do bicampeonato do Brasil do Jackson do Pandeiro. Como se dizia, estava na boca do povo direto: "você vai ver como é Didi, Garrincha e Pelé dando seu baile de bola..."

Minha paixão por música começou com um tio, irmão de meu pai que também gostava muito de arranhar o violão e cantar alguma coisa da época, principalmente do Roberto Carlos que estava começando a fazer sucesso com as primeiras músicas, como "Louco por Você", "Olhando Estrelas" e "Parei na Contramão". Meu tio comprou um livrinho de músicas para aprender as letras melhor e nós ficávamos cantarolado as músicas. Eu passei a gostar ainda mais de música e ele me deu um compacto simples do Betinho e seu conjunto com a música "Neurastênico". Até hoje eu tenho o disquinho e passei a comprar mais discos e também ganhar de presente de amigos e parentes. Parte da minha discoteca, ganhei da família Mello, para quem eu trabalho até hoje com muito gosto.

O bondinho da Vila Neri até a estação era muito legal e hoje não existe mais. Eu me lembro dos armazéns da época como o Pizzani, o Mario Dotto (Migalhatto) que ficava na Avenida São Carlos. Meu pai fazia compras lá. Uma quantidade muito grande de mantimentos como arroz, açúcar, feijão, farinha de trigo, fubá, batata, sal - tudo pago mensalmente! Seria impossível para mim viver em outro lugar. Aqui é meu chão, o meu Paraizo!


sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Depoimento Carmem Sylvia Alves de Lima e Motta - morou na Fazenda Paraizo de 1954 a 1987

Beatriz e Elisa Franco de Lacerda
Asdrubal Lacerda Coelho de Paula - Beatriz Lacerda - Eduardo Coelho de Paula - Elisa Lacerda - Carlos Figueiredo Mello - Marcelo Coelho de Paula - Luiz Figueiredo Mello
Elisa e Beatriz

Carmem Sylvia e José Lacerda - 1960
Frei Estevão - missa centenário - 19 de junho de 1960
Vangila Paranaguá Moniz- Beatriz Toledo Piza e Lacerda - Roberto Figueiredo Mello - Frei Estevão - José Franco de Lacerda
casa de máquinas
sala visitas
sala de jantar

1954. Foi quando começou minha nova vida no Paraizo com José Franco de Lacerda: namoro, noivado, casamento, e eis que estou de mudança para a Fazenda !! O que o amor faz acontecer...

Um enorme casarão de dois andares, jardim, horta, pomar, tudo por minha conta!

Aos poucos a rotina foi sendo feita e o dia a dia acontecendo: na cozinha, Honorata com suas panelas debaixo da pia, me fazia medo: na lavanderia, Rosária e sua filha Fátima (ou Famita assim chamada pelas minhas filhas, pois trocava as letras: laspi = lápis, mânica = máquina) era encarregada da roupa e dos quartos. No jardim, meu fiel escudeiro Alécio Vigatti, mantendo sempre varridos os caminhos, os pátios, os canteiros sempre floridos e o pomar com todas as frutas possíveis, para tapar a boca dos vizinhos!! Havia também uma figura singular, o velho Mané –, filho da escrava Felicidade, nascido de Ventre Livre com seu cachorro Japi, perambulando pelo jardim feito uma alma penada, bufando e resmungando .

Naquele tempo, a colônia era totalmente habitada pelas famílias que cuidavam do gado e do café.

Zé Mion administrava a fazenda com mãos de ferro orientado por José, que, todas as tardes no terraço da frente, ao entardecer, combinava as tarefas do dia seguinte. Isaura, sua mulher, com o famoso sorvete de creme com carambolas e Wilma, sua filha, com seus deliciosos pãezinhos, alegravam a criançada no tempo das férias.

Moacir, excelente marceneiro, formado pela Escola Industrial Paulino Carlos, fez lindos móveis com madeira da Fazenda e desenhos de José: estantes, mesas, banquetas com palhinha. Norma, sua mulher, era minha hábil costureira.

No tempo da colheita, a fazenda era só movimento: café sendo lavado e estendido no terreiro, uma parte era despolpada para exportação e a outra, colocada no vagão e encaminhada para a máquina de benefício. O café do Paraizo era muito bem cotado, “tipo 4 mole” e seguia para Santos pelo corretor Sr. Zambrano a fim de ser vendido no mercado.

No Jabaquara, em 1955 e 56, foram plantados mais 120.000 pés de café, perfazendo um total de 200.000 mudas .

No terreiro, a folia era grande: pular nos montes de café, esparramando tudo, para grande alegria dos encarregados, que tinham de amontoar tudo novamente!!

O casarão necessitava de uma reforma urgente para melhor acomodar os novos moradores, pois não se tratava mais de uma casa para passar as férias, mas sim para morar definitivamente, criar filhos, e raízes.

Havia somente um grande banheiro embaixo, a cozinha bastante antiquada, o tanque de lavar roupa do lado de fora da casa, um quarto de hóspede que dava para a sala.

José, arquiteto nato, conseguiu transformar tudo com muito cuidado, respeitando o estilo e as pinturas das portas e abaixo das janelas imitando mármore, transformando numa grande sala com lareira e jardim de inverno, dando para um pátio todo atijolado. Ficou esplêndido.

E, eis que de repente, o casarão se enche de alegria com a chegada de Elisa (nome das duas avós) em 55 e de Beatriz em 56, em homenagem à Vovó Beata, que tinha 7 netos homens !!!

Nas férias, o casarão tinha a lotação completa:Vovó Beata e sua turma: tia Stella, d.Alayde, Lúcia Sampaio Viana, Antonieta Morelli Rocha, prima Mercedes e tia Sinhá; Toty e Luly com seus sete filhotes e babás.... Era um corre corre o dia todo: café da manhâ, frutas e sucos, almoços em dois turnos (das crianças e dos adultos), lanche da tarde (para as vovós), jantar em dois turnos e lanchinho da noite para todos !!!

Na cozinha, Ana pilotava o fogão de lenha com muita maestria, e Tata, (antiga governante de José) deliciava a todos com seus sequilhos, pães de nata, biscoitão de polvilho e, nas horas vagas, fazia as célebres colchas de retalhos, tudo a mão e perfeito!! Ainda restam algumas.

Passeios a cavalo com os sobrinhos, caçadas noturnas de rãs, dedos presos em anzóis, futebol proibido para as meninas, fazendinha feita com frutas, etc.

Festa junina na tulha para os colonos com baileco animado pelo sanfoneiro, sanduíche de mortadela, quentão, fogueira no terreiro e levantamento do mastro com moedinhas na cova. Bons tempos aqueles quando se conhecia todos os empregados e havia amizade e respeito de ambos os lados.

A família dos Coelho de Paula aumentava. Nasceu Luiz Roberto, mais um menino!!! Uma casa abaixo do terreiro foi reformada, onde podiam ficar com mais espaço e melhor acomodados.

Havia sessão de teatro sob a direção de Roberto, que, com sua equipe de artistas – Leme, Celso, Max, Vergueiro – improvisava cenas hilárias, bailes ao som do órgão, jogo das palavras, mímica, queijo derretido na lareira... Assim eram as noites de julho nas férias. No verão, a piscina improvisada era o reservatório para irrigação do novo cafezal. Todos aprenderam a nadar e travar guerra de abacate. Como a piscina era de cimento e a água, escura, as mães contavam as crianças centenas de vezes para ver se nenhuma estava faltando!!! Graças aos anjos da guarda, todos sobreviveram. E a piscina virou piscina de verdade...

Ficávamos na Fazenda durante o ano todo, vindo a São Paulo nos aniversários das avós e no Natal.

As festas no Paraizo eram animadas, nosso grupo de amigos era bem diversificado: alemães, alguns músicos, professores da USP, fazendeiros e o grupo dos “onze casais”, que até hoje ainda encontro quando vou a São Carlos.

A cidade cresceu e se modernizou. Adeus ao bonde da Avenida, que volta e meia parava na subida por falta de luz, ao trenzinho da Estação Babilônia, ao carroção de leite puxado por seis mulas mineiras habilmente dirigido pelo Edmundo, pai da Ana – portador dos proibidos rapé, cigarros – para os sobrinhos e amigos! Depois vieram os primeiros supermercados em lugar das vendas...

Com a divisão do Paraizo, Toty na Santa Cruz, Luly no Jabaquara e José no Paraizo, cada um ficou com sua sede própria, para melhor desenvolverem seus projetos e acomodarem seus familiares e amigos.

Por ocasião do centenário, 1960, o casarão foi pintado, os quartos remodelados, colchas e cortinas novas, móveis consertados e banheiros novos para maior conforto geral.

Uma linda missa campal rezada pelo saudoso Frei Estevão de Piracicaba e assistida por Sérgio (Figueiredo Mello), seguida de um delicioso churrasco para 300 convidados (foto) marcaram o lançamento da pedra fundamental da capela (atualmente na tulha).

As crianças cresciam. Elisa e Beatriz frequentavam o Colégio São Carlos. No começo dos anos 70, fui convidada a prestar vestibular para Biblioteconomia!!! Imagine minha ousadia, e não é que fui aprovada? Mãe e filhas estudando, foi uma época muito divertida e proveitosa!

Os afazeres eram muitos e variados: geléias, compotas, sabão de abacate, arrumação dos muitos vasos de flores, embalagem de carne para o freezer, colheita de flores para venda no mercado, artesanato rural (feito pelas mulheres da colônia e encaminhados para o Bazar das Fazendeiras), cursos de queijos e decoração, campanha de vacinação nas fazendas, assim eram ocupados meus dias.

(primeira parte...)